sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

FIM,

por Maria Rita Angeiras


Conta a história que o príncipe, montado em um cavalo branco, derrotou a terrível bruxa, resgatou a princesa e seguiu por uma estradinha de terra batida, bem bucólica e romântica. E, para que não restasse nenhuma dúvida ao leitor, confirma-se, na última frase, que os dois foram felizes para sempre, seguido por um fim escrito na última página, em caixa alta e letra cursiva. A verdade é que, dois meses depois, ela olhava para ele, ainda deitada na cama, e achava ele um homem fisicamente lindo, mas bem superficial e pouco interessante. Ela gostava de filme iraniano, ele de blockbuster americano, principalmente os de guerra. Ela gostava de jazz, ele de música eletrônica, no volume máximo. Ela gostava de dormir com a janela aberta, ele de ar-condicionado. Ela também já não conseguia suportar aquela toalha molhada em cima da cama, que sempre acabava em brigas homéricas, em que ele acusava ela de ser neurótica por limpeza, igualzinha à mãe, coisa doída de se ouvir. Além disso, ela achava insuportável o jeito meio bipolar que ele tinha de gostar dela, variando momentos de carinho com surtos de cansaço e indiferença, culpa do trabalho, justificava ele, dois dias depois, após um silêncio mortal, impossível de se fugir nos 65 metros quadrado do apartamento. Do outro lado, não era diferente. Para ele, ela tinha deixado de ser aquela mulher linda, leve e agradável do começo do namoro, e se ocupava de culpar a TPM por tudo, até três vezes por mês, depois de gritar com ele e chorar copiosamente por uma coisa estúpida como uma toalha. Ele preferia assistir filmes de guerra, daqueles bem barulhentos, só para não morrer aos poucos com o oco que ocupava a casa nos dias de briga, enquanto ela mergulhava no pocinho do jazz e nos filmes difíceis demais de se entender depois de um dia de trabalho. Ele morria de calor, os lençóis que ela tinha comprado pareciam quentes demais, e o ar-condicionado ligado parecia uma boa saída para não dizer isso a ela e também uma boa desculpa para dormir abraçado com a mulher que ele ainda tentava amar, só Deus sabe como e até quando. E ela, que esperou tanto tempo pelo cara perfeito, descobriu que, às vezes, a princesa simplesmente não se apaixona pelo príncipe, mesmo depois de sonhar e esperar por ele a vida inteira. E que o príncipe, às vezes, também não se apaixona pela princesa, por mais perfeita que ela pareça ser. E os dois, juntos, descobriram que, às vezes, o fim, aquele mesmo, em caixa alta e letra cursiva, geralmente seguido de um ponto final, vem bem antes do clássico ‘e foram felizes para sempre’.

1 comentários:

Natalie S. Dowsley disse...

Texto maravilhoso, como sempre.
Os contos de fada são bem interessantes: tanto nos fazem sonhar e acreditar que as coisas podem dar certo no final... como podem nos fazer acreditar que as coisas tem sempre um "final".
A vida não é estática e, certamente, os relacionamentos também não... O que é bom pode tornar-se péssimo, denso, pesado demais; o contrário também...
Obrigada por compartilhar suas reflexões e sabedorias conosco.
Sempre cresço um pouco mais quando visito este espaço.
ABraço.