sexta-feira, 4 de novembro de 2011

O VENTILADOR E O VERÃO

por Maria Rita Angeiras

Eu escrevo sem salvar o nome do arquivo e pedindo para que, eventualmente, o computador trave por completo e leve com ele todas essas palavras de quem acordou meio confusa, aérea, e decidiu falar sem compromisso com o discurso. Vou falar que estou bem cansada disso de vocês todos sumirem e voltarem cheios de palavras lindas, gestos doces e programas ultra divertidos. Eu pareço aquela pessoas que está sempre aqui para vocês. Na verdade, essa repetição me deixa tão entediada que eu tenho vontade de afogar meu telefone na tristeza aleatória e desconcertante que vocês sentem quando ficam sozinhos, desamparados e sem chão. E eu podia evitar tudo isso porque eu tenho meus próprios planos e porque sofrer dá um baita trabalho. Mas não. Eu atendo, eu vou e ofereço meu ombro amigo, enquanto dobro o guardanapo compulsivamente, morrendo de vontade de fugir dali antes que vocês comecem a me deixar novamente aos poucos. E a verdade é que eu prefiro que vocês me deixem logo de uma vez, porque eu me acostumo com o barulho do telefone tocando várias vezes, assim como eu me acostumo com o barulho do ventilador à noite, no verão. E isso acaba comigo quando o verão vai embora. E vocês todos são mais ou menos como o meu ventilador e o verão. Vocês acabam comigo quando vão embora.

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