quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

O FURDUNÇO

por Maria Rita Angeiras




Jean-Paul Sartre, Friedrich Nietzsche, Fernando Pessoa, João Ubaldo Ribeiro, Goethe, Clarice Lispector, Schopenhauer e Franz Kafka saíram um a um. Nietzsche, como sempre, estava um pouco pessimista quanto à situação. Não estava muito acostumado a mudanças, mesmo sendo um homem de cabeça aberta, bem à frente do seu tempo. Ele simplesmente recostou-se e colocou as mãos na cabeça, mas não de uma forma resignada, afinal não queria parecer fraco frente aos outros. Clarice tinha muita afinidade com Sartre, mas já estava um pouco cansada das conversas com os mesmos pontos de vista. Então sentou-se ao lado de Nietzsche com um cigarro na mão, colocou as mãos sobre o ombro direito do amigo e pediu para que tivesse fé, ao que ele imediatamente respondeu “fé? mas deus está morto”. Ela não deu muita importância à resposta e acabou se distraindo com uma barata que passeava naquele momentos pelos pés do filósofo. Kafka foi o terceiro a sair. Estava um pouco desnorteado, fazia horas que tentava conseguir explicações mas ninguém lhe dizia o real motivo de ele ter que se retirar dali. Schopenhauer saiu praguejando e xingando a própria mãe. Citou alguns aforismos aleatórios sobre justiça e perguntou quem concordava com ele. Imediatamente todos direcionaram os olhares para Nietzsche, que levantou a mão e começou a caminhar em direção ao seu conterrâneo. Fernando Pessoa saiu ao mesmo tempo que João Ubaldo Ribeiro, mas logo se aborreceu com as piadas de português que o colega declamava em alto e bom som. Esbarrou em Clarice, que pediu desculpas, ao que ele disse “ainda bem, alguém interessante neste lugar que fala português”. O último a sair foi Goethe, que tinha um olhar triste e perdido. Ele olhou para um lado, olhou para o outro e acabou se jogando de lá de cima. Schopenhauer suspirou algo no ouvido de Nietzsche sobre os homens fracos e este balançou a cabeça em concordância. Todos se reuniram, chocados pela terrível cena. E antes que pudessem assimilar tudo aquilo, a menina entrou novamente no quarto, reuniu todos numa pilha organizada e colocou dentro de uma caixa vazia, que estava logo abaixo da prateleira. Fechou o papelão marrom com um adesivo grosso e riscou com uma caneta vermelha a palavra “livros”. Todos ficaram em silêncio.

Um comentário:

Anônimo disse...

Ótimo exercicio de subversão!!!
Mas lembrando que furdunçar pode também significar "divertir-se, pandegar", acredito que você está apenas
de
MUDANÇA!

bj, Lóri