Por Rafael Moreno
Nesse ano o carnaval foi bem pouco depois do fim das férias. Por isso meus pais liberaram a gente da escola e, com isso, ganharam muitos beijos, muitos abraços. Até então, essa história de faltar aula para ir à praia me parecia uma daquelas coisas que só aconteciam nas outras famílias. E acontecia mesmo, porque os pais de todos os meninos da rua, Netinho, Hugo, Nico e Buba, Thiago e André, Felipe, Erick e Sandrinho, fizeram o mesmo. E também tinham os irmãos “El” - Samuel, Ismael, Ezequiel e Jeziel – que já moravam por lá.
Resultado: uma semana inteira, mais o carnaval, para continuar nossas programações das férias, que eram basicamente andar de bicicleta o dia inteiro, tentando se equilibrar sem as duas mãos, subindo e descendo ladeiras, pedalando o infinito caminho que levava até a fábrica de cimentos Poty. Ou catando mangas, cocos e jambos pelas ruas, para depois vender na praia a uns adultos - na maioria, nossos tios ou amigos dos nossos pais. Também podíamos pegar onda de moribugui, pescar com vara, rede ou facho e entrar no mangue para caçar caranguejos, mas aí já tinha que se meter na lama até os joelhos e enfiar os braços nas tocas, coisa que ninguém nunca teve coragem de fazer, mas, tudo bem, porque a gente continuava fingindo conseguir.
E tinha também o futebol. Não importava o nosso destino, alguém sempre andava com uma bola. Futebol manhã, tarde e noite, mudando de acordo com a maré. Meu pai havia construído um campinho no terreno de trás da casa, com grama, barras grandes, de madeira, e uma grade alta, ao redor do campo, para que a gente não tivesse que pular o tempo inteiro o muro do vizinho. Mas jogar na praia também era bom, porque a areia de Maria Farinha é molhada, durinha. O problema são as pedras e os sargaços. Mas tudo bem, nunca vi uma ferida durar muito tempo no corpo de uma criança.
Nesse carnaval alguém chegou com uma grande novidade, a bomba d’água. Descobrimos como se fazia e essa foi a grande atividade do dia. Acho que nem jogamos futebol nem nada. Fomos correndo ao armazém Atol, comprar cano, cabo de vassoura e sandálias havaianas. Depois catamos tampinhas de refrigerante e nos juntamos na nossa garagem, onde Sting, que trabalhava lá em casa, esperava com prego e martelo. Fizemos as bombas, umas quinze, e começamos uma guerra entre a gente, que durou pouco, até alguém sugerir ganhar as ruas para molhar ônibus e carros que passassem na avenida.
Foi no caminho que encontramos o pessoal da Mobilete. Uns filhinhos de papai com bicicletas de cinqüenta marchas, fapinhas e hotmachines, contra quem jogávamos futebol sempre e, contra quem, sempre, brigávamos durante o jogo inteiro – uma vez soltaram os cachorros e tudo. Enfim, eles estavam vindo e todos procuramos esconderijos: atrás do muro, de uma planta, em cima de uma árvore, onde fosse. Os da Mobilete eram poucos. No máximo cinco. E cada vez chegavam mais perto. Nós continuamos escondidos, calados, esperando o primeiro agir. Foi Ismael. Com um pulo ele alcançou o meio da rua e tcha, tcha, tcha, molhou todos. Saímos de onde estávamos e completamos o ataque. Era muito engraçado ver aqueles riquinhos correndo, caindo das bicicletas de alumínio, humilhados. O ataque foi rápido, porque a gente ia a pé e tinha pouca carga nos baldes, mas rimos de doer a barriga e voltamos para casa, para juntar mais água ou talvez jogar futebol. Todos se sentindo um Rambo ou o Último Ninja Americano.
Jogamos bola, brincamos com Kelly, uma vaimaraner linda que fazia parte da família, e ficamos por ali, sentados na palhoça, bastante tranqüilos. De repente algo cai na grama e explode. Antes que descobríssemos o que era, outros seis objetos voadores não identificados começam a cair em todas as partes da casa. Demorou um pouco até notarmos que eram ovos e que vinham das mãos dos riquinhos, que passavam com seus fapinhas e suas mobiletes motorizadas, sujando o quintal inteiro, as plantas, as paredes, o campinho, a piscina, o carro do meu pai. Em menos de treze segundos, todos buscamos nossas armas e corremos para o muro. Guerra. Ficávamos abaixados e, quando eles passavam, metíamos água em seus rostos, seus peitos e em suas bicicletas importadas. Claro que ganhamos umas ovadas nas camisas, nos braços e nas pernas, que doíam. Por isso perdíamos. E feio. Mas a luta não podia terminar. Sempre tinha alguém de nossa equipe correndo com o balde para a torneira e regrassando com ele cheio. Não precisava de ninguém para dizer qual era a hora certa de atacar e o momento preciso de ficar abaixado. Brigávamos com força, com palavrões, com guinchos de água, da água que chegava em baldes, o tempo inteiro. Mas perdíamos. E feio. Até que fui para trás de uma árvore, com o balde nas mãos e mijei. Eu não perderia aquela briga. Mijei mesmo. Depois carreguei minha bomba d’água e segui silencioso para o muro. Ninguém sabia de nada. Só eu. E com muita calma esperei o momento preciso: mirei no rosto de um deles e tchaaaaa. Com a língua ele deve ter sentido o gosto, ou talvez foi o cheiro, ou a temperatura, sei que gritou para todos do seu bando e disso nunca vou esquecer:
- É xixi!
O grito também serviu para a nossa equipe, porque em poucos segundos todos abaixavam as calças e mijavam nos baldes enquanto alguém corria até a cozinha e voltava com garrafas e mais garrafas d’água. Era um revezamento de mijões, uns bebendo água, outros enchendo o balde e uns terceiros correndo até muro para o ataque. Eles continuaram jogando ovos, nós continuamos jogando água amarela. Aí eles foram embora, xingando, gritando, chorando. E nós, vitoriosos, comemoramos. A alegria era grande, todos lembrando de alguma cena, fazendo elogios, rindo da maneira como eles correram, fugiram, em suas mobiletes, seus fapinhas, seus patinetes motorizados, suas bicicletas coloridas. Éramos ninjas, guerreiros, estrelas da Sessão da Tarde. Éramos os donos de Maria Farinha.
Pouco tempo depois meus pais chegaram e os donos de Maria Farinha tiveram que limpar o jardim inteiro. Nunca foi tão bom limpar um jardim.
15 comentários:
Eita! Q massa, Rafa!
Me diverti taaaanto com esse texto!
:)
Bjoka.
Danda.
Mais um bom texto de rafa. Mas isso era óbvio.
Abraços boludo.
Meu irmão, no Canavial já rolou muito desse tipo de guerra. Parabéns pelo texto. Saudade, brother.
Abs.
Massa, Moreninho!
Vc, sempre com as melhores ideias! hahaha
Fiquei aqui imaginando cada detalhe, cada expressão, cada movimento.
Saudade!
Num preciso nem dizer que eu no papel de irmão mais novo, era colocado na linha de frente da guerra. Eu ficava atrás das linhas inimigas, obedecendo ao meu irmão e ao mesmo tempo querendo mostrar para ele que eu era corajoso, valente e brigão.
Quem sabe assim, eu conseguiria uma vaga no time de futebol, ou poderia acompanhá-lo nos passeios de bicicleta até a Poty(naquela tempo, a Poty era o lugar mais longe do mundo).
O pior era que Rafael tramava tudo, eu tinha que acompanhá-lo, lógico, e sempre terminava de castigo junto com ele.
Artur M.
Muito bom! E apesar de menina, como isso tem o gosto da minha infância... Muito obrigada por me fazer reviver isso!
Eu era um dos caras da Mobilete.
hahahahhahahahahahhahahahah
você é foda.
sem mais.
Cara, moreno vc praticamente contou um momento da minha vida! Eu já tive o prazer de atirar água amarela e ouvir um perplexo inimigo dizer: "É xixi!" ... simplesmente hilário.
Abraço!
Rafa, morri de rir com teu texto. Parecia que tava ouvindo tua voz contando... lindo seu amigo treloso.
luba
É verdade, parece que a gente consegue ouvir as gargalhadas de quem conta uma história muito bem vivida e cheia de saudades. Muito bom sentir saudades! Coisas boas vividas não é? Amém..
peripécias infantis são as melhores. adorei esse texto nostalgia, me lembrou O menino do espelho de Fernando Sabino.
parabéns. :)
eita, que eu lembrei de milhoes de outras historias em Gustavo Farofa.
beijinhos,e saudades.
Rafa,
Esse hisória me fez lembrar nossa maravilhosa infancia.
Saudades,
GuiLa.
Se não sabe brincar, não desce pro play. kkkkkkkkkkkk Boa, Mora...Abraço!
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