segunda-feira, 16 de agosto de 2010

TOSSE, TOSSE, TOSSE

por Rafael Moreno


Ficar doente já foi bom um dia. Ah, já foi. A gente tinha febre e deitava na cama, coberto até o pescoço por lençóis, enquanto o resto da família nos arrodeava com suco de laranja, biscoitos e gibis. Dependendo da temperatura e do tempo da doença, a televisão poderia, vejam só vocês, ser transferida para os nossos quartos. E televisão no quarto, naquela época, era coisa fina, tipo cinco estrelas. Ficar doente significava ter a mãe que faltava ao trabalho e passava o dia colocando a mão nas nossas testas, ajeitando as cobertas, perguntando se nos sentíamos melhor. Aí a gente colocava aquela cara de filho, olhando de baixo pra cima, e – tosse, tosse, tosse – soltava aquela tossezinha marota, que fazia a mãe se desesperar um pouco, ajeitar o travesseiro e trazer uma colherzinha de xarope que a gente fazia careta só de olhar, já que naquela época remédio tinha gosto de remédio e a gente precisava de um mimo pra poder suportá-lo: chocolate, guaraná Antarctica, um boneco Playmobil.

Hoje é muito diferente. Remédio é comprimido e você toma com água, recebendo ordens da mãe por telefone porque ela está ocupadíssima no trabalho. A febre passa mais rápido, hoje em dia. É um comprimido a cada seis horas e pronto. Não tem mais essa de ligar pro primo do marido que é médico. Ninguém se desespera para encontrar uma farmácia que esteja aberta de madrugada, prometendo a você que volta logo. É só abrir uma prateleira na cozinha e lá estão todos: o já citado paracetamol, a dipirona e o ácido acetilsalicílico. Prefere qual? Nem escolhem mais por você dizendo: esse é de cereja, tem gosto de chiclete, pode tomar que é gostoso.

E tem também a operação, que antes era em maiúscula e hoje vem, tranquilamente, em letra miúda. Digo mais, essa é uma palavra que um dia vai ter abreviação. Vou ali fazer uma ope. Mas em outros tempos, meu amigo, era coisa séria. Só se falava Operação seguida de um sinal da cruz ou de três toques na madeira. A família vinha do interior, duas semanas antes da cirurgia. A turma, com terço na mão, arrodeando a cama do paciente; os vizinhos que passavam pra cumprimentar oferecendo ajuda. Qualquer coisa é só avisar, é só bater aqui na porta, pode contar com a gente. E havia os presentes. Roupas, livros, bolos-de-rolo, discos de Roberto Carlos. No dia da cirurgia, era uma confusão. Tanta flor, tanta família, tantos amigos, tantos discos do Rei que os corredores ficavam cheios. As pessoas precisavam se revezar na sala. Era necessário algum controle. Tipo um irmão que ficasse na porta para escolher quem entrava, igual a segurança de boate.

E pobre de quem não fosse visitar o paciente. Entrava sem escalas na lista negra. Persona non grata. E o paciente, que agora era o centro das atenções, secretamente adorava tudo isso. Por exemplo, deixava claro, bem à mostra, o braço com o soro injetado. Ficava com o corpo meio mole, a voz meio rouca, meio cansada. E fazia caras, fazia caretas, interrompia as conversas que tivessem qualquer tema que não fosse ele. Se alguém começasse a falar da novela, soltava um aaaai, bem assim, bem demorado. Aí imediatamente alguém saía correndo para chamar a enfermeira, enquanto milhões de mãos apertavam as suas carinhosamente, alisavam seus cabelos, buscavam um copo d’água. Muita gente virou ator profissional depois de uma cirurgia. Descobriram, deitados na cama do hospital, uma vocação.

Nesses dias sem graça em que vivemos, você é operado e sai no mesmo dia. Não dá tempo nem de terminar uma cruzadinha, nem de ler a Veja. Sem contar que os amigos só se inteiram pelo Facebook. É difícil receber uma visita no hospital, hoje em dia. Ligam do celular, fazem uma piadinha. E o presente é um tapinha nas costas. No máximo. Fora isso, ninguém exibe mais, orgulhoso, uma cicatriz. É tudo na base da laparoscopia. Antes, não. Antes você tirava a camisa na praia, dando a maior pinta de que estava vivendo pela segunda vez. Antes você tinha um assunto para usar nas paqueras de bar, afirmando que ainda estava se recuperando de uma importante Cirurgia, com C maiúsculo, obviamente. Antes você ganhava um beijo da prima do interior, que dizia: É pra ver se você fica bom logo, primo.

Mas amanhã vai ser pior. Ainda pior. Amanhã, depois de tomar uma pílula, a vesícula vai sair assim que você for ao banheiro fazer o número dois. Amanhã um comprimido efervescente vai desinflamar o apêndice. Se você pensa em adoecer, meu amigo, aproveite agora. Adoeça hoje. Amanhã vai ser complicado. Nem faltar ao trabalho você vai poder.



texto originalmente publicado no www.shoppingrecife.com.br/30anos/blog

11 comentários:

Anônimo disse...

aaaah,o guaraná antarctica... e natural ainda mais... acompanhando um biscoito recheado que era comprado exclusivamente pro doente. Vídeo-game (no tempo, Atari)... a mãe autorizava jogar o dia todo, sem limitações de tempo pra "esquecer" a presumida dor!
bons tempos!

gilvanycynthia

Edízia Lessa disse...

Eita que este é de chorar, e o pior é que não é de rir! Parabéns! Esse tá do C...o com C maiúsculo! E, o mais legal é que para concebê-lo e compreendê-lo tem que ter uma Sensibilidade com S maiúscula! Que bom, nem tudo está perdido não é? Ainda há cura!

Anônimo disse...

Adoro seus textos Rafa,pois,eles sempre têm um gostinho de saudade.Infelizmente,hoje, as pessoas andam numa correria assustadora, atrás de algo que nem elas mesmas sabem. E,o que antes era prazeroso, como um simples gesto de atenção para com o outro,passou a ser uma perda de tempo...

Cristina G. Muhle( Mãe de André Muhle, que aliás, faz parte desse time,e continua nos enrolando.)

Anônimo disse...

Muito bom.
Tava com saudade de seus textos.
Beijo grande.
Cláudia

Anônimo disse...

Gostei muito do seu texto! Remeteu-me ao passado...lembrei-me, como uma preciosidade, do dia em que meu pai, porque eu estava doente, me trouxe de presente o livro da galinha ruiva...ai que saudade...

Maria Carolina disse...

Ahahahah. Serio, quando eu crescer, eu quero escrever como voce...

Anônimo disse...

Sempre leio, nunca comento, mas adoro o blog. ;)
Texto emocionante...dá vontade de ler e reler um monte de vezes, pq tem aquele gostinho de infância, aquele cheirinho dos anos 80...
Eu adorava ficar doente pra puder faltar aula e assistir ao show da Xuxa...kkkkk e tomar Cebion. Só não gostava da parte de ter q tomar Revenil, um xarope preto com gosto horrível..kkkkkkkk
Nostalgia pura esse post...
Parabéns pelo seu talento!

Hugo Souto Maior disse...

Na minha infância eu vivia doente...asmático. a diversão era descobrir qual hospital tinha a melhor comida, uma vez que asmático não tinha dieta leve! muito bom o texto, mora. Abraço!!

Mariana Moreno disse...

bons tempos, hein?!
epoca do meu querido Naldecon, delicia!

Joana disse...

Eita que o nome disso é dengo!Tem coisa melhor?!Era uma arte de variar o dengo. A depender do capricho,a guloseima passava de biscoito bono para docinhos da padaria e a massagem finalmente não ficava só no pé! Bons tempos.Você vai ficando velha e a criatividade vai acabando..
adorei o texto,o sr. escreve que é uma beleza!

Mari Bahia disse...

Ainda bem que tu fosse me visitar no hospital quando fiz minha Cirurgia!Hahahaha!
Muito bom, Mora!
Beijão