por Maria Rita Angeiras
Uma delicada ante-sala me preparava para a sala propriamente dita. Sentei em uma das cadeiras floridas, aquecidas por um pequeno abajur e uma revista em inglês sobre Paris, e fiquei esperando a minha vez chegar. Olhei novamente para a revista e, como todo mortal de classe média do mundo, pensei que Paris pudesse resolver todos os meus problemas do momento. Talvez eu pudesse usar todo o dinheiro que eu ainda vou gastar com terapia com uma viagem para a França. Lá eu teria um subemprego simpático, sem a competição massacrante dos grandes escritórios, um apartamento onde eu chegasse cedo para manter minhas flores vivas e um amor que eu não tivesse preguiça física e emocional de manter porque eu não estaria sempre tão cansada do meu trabalho. Mas eu desisto de ir para Paris e continuo sentada esperando a minha vez. A minha vez de contar para uma estranha de sorriso simpático que eu sou apenas mais uma com nomes diferentes para contar as mesmas histórias, porque todos nós queremos desesperadamente ser normais, amados e aceitos, além de felizes, bonitos e bem-sucedidos, sem excessão. Nós queremos a felicidade pasteurizada, comum a todos, porque assim parece mais fácil e menos doloroso. Afinal, nós preferimos passar a vida inteira acertando apenas três números da loteria a passar uma vida inteira tentando batalhar pelas aclamadas seis bolinhas. Então nós deitamos em lindos divãs pretos estofados, com o nosso vácuo de alegria distraída, e imploramos uma vez por semana para alguém ajudar a gente a juntar todos os caquinhos que sobraram das nossas expectativas retas e das nossas expressões duras. E essa ajuda vem e tudo começa a fazer mais sentido e a gente começa a se sentir assim, mais comum, mais um na multidão, exibindo heroicamente nossa felicidade de muletas. E tudo isso faz muito sentido até eu sentar na minha própria cama e pensar ‘até quando’? Até quando eu (fique à vontade pra se incluir, se for o caso) vou sentar na frente de uma estranha de sorriso simpático e falar dos meus problemas, tão comuns à própria existência? Até quando eu vou sentar na frente de uma estranha de sorriso simpático e cair no choro, tão comum a qualquer um que é minimamente capaz de sentir dor? Até quando eu vou sentar na frente de uma estranha de sorriso simpático e chegar a explicações plausíveis, tão comum ao final de certos aprendizados? Até quando eu não sei, até porque eu ainda estou aqui, sentada na cadeira florida, lendo um livro sobre Paris, presa na ante-sala, prevendo o meu futuro quando entrar lá. Mas uma coisa eu posso dizer: um dia, depois de você ter segurado a minha mão por algum tempo, eu vou simplesmente soltar, num protesto silencioso por toda essa supervalorização em massa da zona de conforto. Porque não dá pra escolher sentir a dor pela metade sem escolher, também, viver a vida pela metade.
6 comentários:
Quando fico diante da caixa de comentários e não sei exatamente o que dizer, é porque o texto foi tão bom que ainda está ricocheteando no meu cérebro. Sensacional. Parabéns.
muito, muito bom.
Todo o texto maravilhoso... mas esse final... foi forte!
gilvanycynthia
Incrível! Lindo texto, lindo final.
=)
É preciso reiterar: ótimo! Texto de extrema sensibilidade. Gostei deveras!!!
Ah, Maria, tuas palavras traduzem a beleza da alma.
É puro carinho.
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