quinta-feira, 3 de março de 2011

MEU BEM, VOU ALI COMPRAR CIGARRO

por Rafael Moreno


Era uma sexta-feira, logo depois do almoço. Ela assistia ao Vale a Pena Ver de Novo.

- Meu bem, vou ali comprar cigarro.
- Que conversa.
- Oi?
- Você vai é pro carnaval, que eu sei.

Tinha esse detalhe: era véspera do Sábado de Zé Pereira.

- Como assim, meu bem? Só vou no fiteiro da esquina. Já volto.
- Volta na quarta-feira de cinzas. Com o pescoço marcado. Já conheço essa história.
- Naquele ano foi diferente... eu realmente fui seqüestrado!
- E o seu pescoço voltou todo arranhado.
- Era a corda!

Etevaldo passa a mão no pescoço, lembra dos bandidos, da pouca comida e de como conseguiu fugir, chegando em casa com uma regata do Eu Acho É Pouco e uma garrafa de batida de limão.

- Eles não tinham água. Eu estava com sede! E a camisa eu roubei num varal!

Marinalva – chamava-se Marinalva – tira os olhos do marido e volta-se para a televisão. Diz:

- Se você for comprar cigarros, eu vou... fazer a unha. Durante cinco dias. Direitos iguais.
- Mas eu não vou pro carnaval!
- Então também não vai comprar cigarros. Se for, eu vou também.
- Mas você nem gosta tanto de carnaval assim.
- Posso gostar.
- Eu só queria fumar um cigarrinho.
- Se você for, eu faço as unhas. Durante cinco dias. Já falei.

Estavam num impasse. A Globeleza dançava na TV. Marinalva mexia nos dedos, arrancando o esmalte.

- Olha, se você não acredita em mim, tudo bem. Eu não vou no fiteiro.
- Como assim?
- Não fumo mais. Pronto. Se é pra provar que não vou pro carnaval, paro de fumar.

Sentou na poltrona, ao lado do sofá. Colocou os pés na mesinha de centro.

- Mas você fuma todos os dias.
- Fumava.
- Não fuma mais?
- Fumo não.

O repórter mostra os preparativos para o Galo. O percurso, os trios. Marinalva se vira para o marido.

- Eu acredito em você, sim. Acredito. Pode ir comprar o seu cigarrinho.
- Não vou, não.

Ela insiste.

- Por favor, vai lá.

Ele está decidido:

- Não quero.

Uma propaganda anuncia um Carnaval de Ofertas. Outra também. Depois outra. Uma bandinha toca ao vivo no Fortim de Olinda, com passistas pulando sobre sombrinhas. Sai a programação oficial. Ela apanha a bolsa. Levanta-se.

- De todo jeito, olha: preciso mesmo fazer as unhas.

1 comentários:

Natalie S. Dowsley disse...

O humor inteligente e sarcástico é sempre interessante de ver, ler, ouvir...
Adorei o texto.

p.s.: Cadê vocês?! Faz tempo que não aparecem por aqui!:)