por Maria Rita An geiras
Ontem foi quinta-feira e cheguei em casa à meia-noite, logo depois do trabalho. Mal adentrei o prédio e o simpático porteiro me deu a excelente notícia de que os dois elevadores tinham quebrado. Dei umas boas risadas e pedi pra ele cortar a pegadinha, já era meio tarde pra isso. A síndica fez que sim com a cabeça e, resignada, tirei as sandálias de 10cm dos pés. Para quem não sabe: 14 andares. Logo eu, que mantenho minha forma física com batata-frita do Fifties, sempre acompanhada de maionese verde e ketchup. Abaixei a cabeça e encarei as escadas, cabisbaixa. E é quando esse tipo de coisa sacana acontece que você pára pra pensar sobre a vida em geral – até porque são os únicos momentos em que a gente tem tempo de pensar com calma em alguma coisa mesmo. Só pensava na quantidade de trabalho, nas três ou quatro horas a mais que eu fico na agência e deixo de assistir um bom filme, ver o jornal, sair com amigos, ouvir músicas novas, malhar – desculpem, essa parte de malhar foi mentira mesmo. Enfim, publicitários. Três turnos por dia. Finais de semana. Feriados. Dias santos. Egos homéricos. Bunda na cadeira o dia inteiro. Prêmios. Prêmios. Prêmios. Anuários. Junk food. Pressão.
- Desculpa, não vai dar pra viajar porque vou trabalhar no sábado.
- Ah, e no domingo também.
- Não, nem vai dar pra chegar a tempo da missa e rezar pra esse bendito prêmio chegar logo na minha prateleira e eu poder respirar por alguns segundos.
Tem um título da Fallon pra Citibank que fala algo assim: “Trabalhe, trabalhe, trabalhe. Mas não se esqueça: a vida está nas pausas”. É isso: a vida acontece quando você está num bar com os amigos ou numa praia tomando sol ou num sambinha com a galera. Tudo isso é verdade. Mas se todo mundo tem que passar 8 horas ou mais no trabalho por dia (o que estatisticamente significa a maior parte da sua existência), que seja num trabalho que você ame, que te dê um tesão enorme, que valha a pena cada horinha gasta, que te faça levantar com um sorriso no rosto toda manhã. E não é bullshitagem de auto-ajuda. A não ser que sua opção seja vender bijou na praia vestido numa roupinha hippie-olodum e com o cabelo sujo. No 13o andar eu chego à conclusão: foda-se, vale muito a pena. E agora, supondo que nós dois temos algum intimidade, eu te pergunto: você realmente ama o que faz ou é apenas um batedor de cartão?
2 comentários:
Todo dono de agência é um Filho da Puta. Desculpe o palavrão, mas é verdade.
Eu até podia ter abreviado. Podia ter escrito FDP. Mas acho até que manerei. Devia mesmo era ter escrito com o Caps Lock apertado.
Amar o que faz é ótimo. Mas isso não significa que você tem que fazer hora extra de graça.
Você fica horas, madrugadas, sábados e domingos trabalhando. Deixa de ir ao cinema, de namorar, de ler um bom livro ou de ficar na rede balançando pra que?
Você tá deixando de viver somente pra encher cada vez mais o bolso do dono da agência e do cliente dele.
Sim, publicidade é negócio. É dinheiro. Assim não é amor. É putaria.
todo emprego é um negócio. isso é fato. mas, como eu disse na crônica, se você tem que passar a maior parte do seu dia lá, que pelo menos você seja apaixonado pelo que faz.
é o mínimo.
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