quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

TELE VIDA, BOA NOITE

por Rafael Moreno






- Tele Vida, boa noite.
- Péssima. A começar pelo nome da empresa de vocês.
- Em que posso ajudá-lo, senhor?
- Vamos pensar num novo nome para a empresa.
- Senhor, em que posso ajudá-lo?
- Você gosta de escrever?
- Qual o seu problema, senhor?
- É boa de português? Saca gramática? Gosta de ler gibi?
- Senhor, eu só posso lhe ajudar se você me ajudar.
- Eu preciso de ajuda.
- O que posso fazer pelo senhor?
- Tenho até o fim de hoje para escrever uma crônica.
- Certo.
- Como "certo"? A senhora não entendeu a gravidade do problema?
- Senhor, tente se acalmar.
- E pára de me chamar de senhor. Eu tenho 25 anos.
- Tudo bem. Como você se chama?
- Rafael. Meu nome é Rafael.
- Oi, Rafael. Eu sou Clotilde. Gostaria de ajudar você. Mas você precisa me ajudar dizendo qual o seu verdadeiro problema.
- Dona Clotilde, a senhora falando isso eu só lembro de Tropa de Elite: você precisa me ajudar para que eu possa ajudar você. Sabe, naquela cena em que o mecânico vai pedir férias.
- Podemos focar no problema, senhor?
- Não precisa me chamar de senhor, Clocló.
- Clotilde.
- Então não podemos nem nos tratar bem?
- Senhor, você poderia me dizer qual o seu problema?
- Tenho que escrever uma crônica até o fim do dia. Já disse.
- Tudo bem. O que vai acontecer se você não fizer isso?
- Ritinha vai reclamar.
- Quem é Ritinha?
- Ela escreve junto comigo. Toda semana é a vez de um. Essa é a minha.
- Tudo bem. Só isso vai acontecer?
- André também. Ele também pode ser que reclame.
- E o que vai acontecer se eles reclamarem?
- Nada.
- Então, senhor Rafael, não vejo motivo pra você estar tão aperriado.
- É Rafael. Sem o "senhor", Clocló.
- Clotilde.
- E, Cló, é mais grave do que você imagina. Eu fico me sentindo muito mal quando começo um texto e não consigo terminar. Aliás, já comecei seis e não passo da oitava linha. Fica faltando idéia. Eu fico achando que tá fraco. Muito ruim sentir isso, Cló.
- Senhor, são três horas da manhã. O senhor não prefere dormir e tentar escrever pela manhã?
- ...
- Senhor?
- ...
- Senhor?
- Já disse, Clótis. Meu nome é Rafael.
- Ai, meu Deus. Tá bom, Rafael. Você não prefere ir dormir?
- Sem ter terminado o texto? Não vou conseguir. A insônia bate forte nesses dias.
- Por que você não experimenta ler um livro?
- Tá doida? Aí fico pensando como ele conseguiu dizer isso, isso e aquilo outro. Não é fácil, não, Cló.
- Gostaria de saber como fazer para ajudar.
- Você não tem nenhuma historia interessante pra contar, não? Eu poderia escrever sobre ela.
- Tenho nada.
- Nadinha? Nenhuma novidade? Olhe, olhe.
- Minha vida anda tão vazia. Tão parada.
- Vamos, Cló.
- Nada, seu Rafael.
- Como vai o casamento? Você é casada, não?
- Não... Ele me abandonou. Nove dias antes do casamento. Já tinha até distribuído os convites.
- Que coisa.
- É.
- E por onde anda o infeliz?
- Quem sabe? Sumiu nesse mundo.
- Que infeliz. Você está bem?
- Mais ou menos.
- Defina mais ou menos.
- Não gosto muito de falar sobre o assunto.
- Tem que falar, Cló. Tem que colocar pra fora.
- É que, sei lá. Fico meio sem querer. Às vezes ainda choro.
- Tem que colocar pra fora.
- Mas deixa pra lá. Não quero lembrar disso.
- Vai te fazer bem, Cló.
- Não, melhor não.
- Senhora, eu quero ajudar você.

3 comentários:

Anônimo disse...

FIco toda orgulhosa das sua crônicas. Amei a da Clô. Bjos Tia Ju

Anônimo disse...

Esse é o Morenion... Pegar as colunas do Verissimo no DP deu resultado...

Anônimo disse...

tu é meio mamão né?

oh yeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeah!