quinta-feira, 27 de março de 2008

SEMANA SANTA

por Rafael Moreno




Lucas, que estava fazendo a primeira eucaristia, rezava antes de dormir e sempre beijava a cruz do trancelim quando fazia gol, ficou surpreso quando ouviu os pais, que nunca foram lá muito católicos e só botaram o filho na comunhão por insistência da avó materna, anunciarem que iriam cancelar o peixe e fazer um churrasco. Tão surpreso que saiu correndo pela grama, gritando:

- Cristo assado! Cristo assado!

Dando soquinhos no ar, no maior estilo Pelé.


*


Frederico achou que seria legal passar o feriado na praia com a irmã e o namorado finlandês que ainda nem conhecia. Os três passaram os dois primeiros dias em casa, jogando cartas e assistindo filmes. Chuva o tempo inteiro. Quando ligaram para Frederico de uma praia vizinha, dizendo que estavam na maior festa, mulheres, bebidas e músicas dançantes, mesmo com a chuva, ele pegou o carro, comprou um litro de teacher's, colocou desodorante e dirigiu até metade do caminho, quando descobriu que nenhum carro passava por causa de um atoleiro. Frederico voltou pra casa e bebeu meio litro de uísque. A outra metade quem bebeu foi o cunhado.


*


Carol achava que era pecado ter relações sexuais antes do casamento, quanto mais no domingo de Páscoa. Vamos só ver o filme, Fabinho. O filme é bom. Deus castiga, Fabinho. Não faz isso, Fabinho. Só que Fabiano estava num dia daqueles e Carol bem que gostava desses dias. Deixou ele colocar a mão entre o jeans e calcinha. Foi nessa hora que o pai chegou.

- Eu não disse! Eu não disse!

Dizia Carol enquanto corria para o quarto escondendo o rosto, deixando Fabinho parado na sala.


*


Maria Inácia resolveu ir para a fazenda da irmã, já que o marido queria trabalhar em casa no feriado.

- Claro que ele não vai trabalhar, Maria Inácia.

Mas Maria Inácia acreditava que Alfredo era um santo.

- Ele é um santo, o bichinho. É quase Cristo.

Quando chegaram no domingo de Páscoa, Alfredo estava dormindo no chão, com uma calcinha vermelha na mão esquerda e um sutiã amarelo no dedão do pé direito. Enrolado numa toalha, com oito garrafas de champanhe, um tubo vazio de molho inglês e meio ovo de páscoa.

- Mata. Mata ele, Maria Inácia - disse a irmã, que se chamava Fatinha, quando soube da história por telefone - deixa que depois ele ressuscita.

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