quarta-feira, 23 de abril de 2008

VISITA

por Rafael Moreno





Espiava. Pelo buraco da chave na porta, espiava. De dentro pra fora. Entrou ali e jurou que não saía até que ela fosse embora. Engraçado, depois de tanto rezar a Deus, Jesus e Maria e de pedir baixinho pela visita da filha da amiga da mãe, ele queria que ela fosse logo embora. Por que ela tinha esses cabelos loiros? E esse cheiro de, de, de, de coisa boa? Os olhos azuis. O vestido sempre limpo. E o sorriso? Por que ela sempre queria pegar na sua mão e sair correndo com ele pelo quintal? Rezava e pedia baixinho todos os dias pela visita e, agora que ela chegara, com seus cabelos loiros, seus olhos azuis e aquele sorriso de quem nunca fica envergonhada, de quem sempre está à vontade, ele estava escondido. Assim que soube da mãe que elas – ela – havia chegado, trancou-se no banheiro. Escondido. A mãe chamava seu nome. Ele mudo. A menina perguntou por ele. A mãe chamou de novo. Ele nem se mexeu. Suava. Sentia a boca apertada. Seca. Tinha medo de chorar. De repente ficou torcendo para que fossem – fosse - embora. Rezou. Queria nunca mais ver aqueles cabelos loiros e sentir aquele cheiro bom e nunca mais ia deixar ela pegar na sua mão e nem ia sair correndo com ela pela grama e estava disposto a morar para sempre naquele banheiro só para não ter que ver outra vez aqueles cabelos loiros e aqueles olhos azuis que pareciam nem ter final e aquele sorrisinho com os dentes bem pequenos e branquinhos e que eram até mais brancos que a pele dela, que era a pele mais cheirosa que existia em todo o mundo, disso ele tinha certeza.

Abriu a porta devagar e ficou atrás dela um tempinho. Depois saiu. Saiu olhando para os pés, quase sem andar. Lentamente levantou a vista e viu que a menina sorria feliz para ele. Viu seus olhos azuis brilharem. Seus cabelos loiros balançando. Viu o seu sorriso aumentar. Aquele sorriso lindo. Viu sua boca se abrir e preparou os ouvidos para escutar e ouvir aquela voz linda. Já estava arrependido de ter passado tanto tempo trancado. Queria correr para perto dela e segurar na sua mão e nunca mais se esconder novamente.

- Dudu tava fazendo cocô!

5 comentários:

Anônimo disse...

Cada vez que eu leio teus textos dá aquele orgulho lá dentro. "Putz, que massa! Foi Mora que escreveu... Moreno, pô."
Mas, de vez em quando, tbm dá uma raivinha pequenininha. "Porra, por que eu não escrevo assim?!"

beijo grande.

Pedro Lazera disse...

achei massa, cagão.

papillon bleu disse...

crônicas?ta certo..não dispensam comentários porque é de comentários que o vulgo é feito e é do vulgo que o mundo se alimenta mas elas mostram um rafael muito além de qualquer comentário...
muito bom!

Anônimo disse...

Só pra te dizer q to com uma saudade danada, misturada com ansidade de ver a peça do imip, pq não to com tempo de entrar no msn esses dias... Qto ao texto, já discutimos horas sobre ele e a escolha de cada nome. =)
Beijos, amigo lindo.

Unknown disse...

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk