por Rafael Moreno
Eu sou daqueles turistas de alma corajosa, que é o mesmo que dizer prefiro caminhar que gastar dinheiro com táxi. De maneira que, entre um bar e outro, ou entre o hotel e um restaurante, prefiro andar pela avenida quando a distância não é tão comprida assim. Trago a sensação de que, só porque saí do Recife, nenhum outro lugar do mundo é perigoso. E algo me diz que isso é verdade. Tanto que quando perguntei ao recepcionista do hotel onde ficava uma pizzaria aí - que estava a quatro ruas - também perguntei se dava pra ir e pé. E tive que ouvir ele bem humorado: pô, queres que a gente te carregue?
O relógio já passava das dez e, mesmo assim, existiam outras pessoas na beira mar: fazendo cooper, andando com os cachorrinhos, comprando revistas, tomando sorvete, caminhando simplesmente: famílias inteiras, caminhando enquanto o vento batia nas roupas, assanhava os cabelos e fazia as namoradas colarem nos namorados por causa do frio. Dez horas da noite. E eu que evito a jaqueira a partir das oito – o que também me serve de desculpa, devo admitir.
Gostaria muito de sair do Recife pra sempre. Essa é uma vontade que aumenta a cada história que escuto (há dois dias um amigo passou quatro horas seqüestrado). Mas não dá pra viver longe de todo mundo que amo - não por muito tempo. Não dá pra viver longe do Recife em si. Da minha cidade. Dos meus bares. Dos meus mercados. Do meu trânsito. Dos meus atalhos. Da mania de buscar uma sombra para estacionar. Das minhas palavras. Do sotaque. Dos meus almoços de fim de semana que se revezam entre casa de mãe, casa de avô e bode dourado com os meninos. Da minha barraca de côco que, acabei de descobrir, vende empanadas argentinas. Das cervejas tomadas na cozinha de casa, enquanto dona Ilka prepara o almoço que é sempre especial. Aliás, de todas as minhas companhias para uma cerveja. Da minha orla. Dos prédios que estragam a minha orla e que, ao mesmo tempo, prendem a gente porque são bonitos. Da minha pelada de segunda. Da possibilidade de comer carangueijo quando der vontade. Das boates da moda, que deixam legais as que sairam da moda. Do meu sofá. Das praias que nunca vou. Da minha casa em maria farinha.
Eu vou abrir a janela do meu carro e que me assalte quem quiser. Vou levantar minhas mãos quantas vezes apontarem para mim. E que levem meus celulares. E que levem meu pouco dinheiro. E que levem a minha vida de uma vez, porque levar devagarzinho assim perdeu a graça há um bom tempo.
9 comentários:
muito sincero o texto... assuta a viol�ncia na cidade. mas, concordo que n�o d� para viver longe de tudo e todos que amamamos. Nanda.
As palavras são concisas e verdadeiras. Mas não se pode abusar da melancolia e usá-la como trincheira e último refúgio.
abraço forte.
Lenin
Tão legal, Rafa..
Um beijo.
3 defeitos de Recife: a violência, o calor e a aristocracia rural em que boa parte de sua burguesia é fundamentada. O resto é massa.
Rafael Moreno: isso não se faz :~~~~
Muito bom
vendo desse jeito,
morar em Recife
é quase poético,
um assalto atrás do outro
é lírico
e a cidade é quem vai
tirando a vida da gente,
bem devagarzinho.
com certeza o que
não dá é pra viver
sem casa de vô.
massa o texto.beijo.
ei rafa... nunca mais faça isso! que saudade que deu da minha terrinha... e digo mais. essa barraquinha de coco aí que vende empanadas é pertinho lá de casa. buáaaaaaa
eu quero caranguejo quando sentir vontade, mas discordo, em partes. o ser humano eh completamente adptavel. eh so questao de tempo.
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