quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

QUERO SER JOHN MALCOVICH

por Rafael Moreno





Sou o único sentado sozinho. Ótimo. E o melhor é que não quero fazer amizades. Me quedo fechado nesse mundo que existe entre eu e o caderno. Meu tempo. Eu. Eu. Eu. Eu, o caderno e esse presunto com abacaxi. Como faço: presunto de entrada e abacaxi de sobremesa? Não sabia que serviam abacaxi como entrada. Tomara que mais alguém peça cerveja, assim não pareço um alcoólatra. Quem se importa? São pessoas que nunca mais verei – principalmente essa galera do Japão. Deixa-me sozinho. Amanhã será tomorrow. Bom, se escutei alguém dizer De azul, deve ter sido sobre mim. Foram as colombianas que conheci no barco. Que estarão falando? Fiz alguma coisa de errado fora estar sozinho numa mesa, no canto mais isolado do restaurante, fechado num mundo que só existe entre eu e meu caderno? Chegou minha cerveja e quem parece ser meu único amigo aqui, o garçom. O mesmo que me ofereceu Coca, Sprite ou cerveja, pronunciando esta com gosto, como que dizendo hoje é sexta, Rafael. E que quando perguntei qual era a marca ele disse com o peito cheio: Cristalina. E que quando perguntei se era uruguaia ele disse que sim e esse sim me pareceu muito orgulhoso. Então pedi uma e ele perguntou 350 ou 600 e nem me deixou responder porque já havia me dito que era sexta, de maneira que emendou: 600 - quase dizendo “claro”. E a cerveja chegou. É boa (é cerveja). Agora que levanto os olhos vejo que realmente sou o único a beber. Quem se importa? Na verdade, quem deveria se incomodar era eu: hoje é sexta, vocês estão de férias, visitando o Uruguai, porque tomam Coca? Coisa boa de estar sozinho: tenho mais pão. Além disso, posso escrever ao invés de ficar conversando amigavelmente com as chicas colombianas e os amigos colombianos delas. Princípio de amizade é uma bosta. Todo mundo é legal. Todo mundo ri do que você fala. Todo mundo é compreensível. Falam bem do seu país. Blá. Blá. Blá. Eu gosto é da amizade estragada. Dedo na ferida. Gargalhadas. Há meses sinto falta disso na Argentina. A comida está muito boa. Incrível. A cerveja, que anda vazia na garrafa – mas cheia no copo, também. Não sei se peço outra ou um refrigerante. Tenho receio de tomar o microfone da guia do city tour e cantar Mangueira teu cenário é uma beleza que a natureza criou, o morro com seus barracões de zinco, quando amanhece, que esplendor. Todo mundo te conhece ao longe pelo som dos seus tamborins e o rufar do seu tambor. Chegou ô ô ô, vamo gente, a Mangueira chegou. Mas amanhã será tomorrow, como disse o poeta – Falcão – e fico aqui pensando em como será o amanhã – e inevitavelmente a música entrou nessa conversa e vem cantando Responda quem puder, o que irá me acontecer, o meu destino será como Deus quiser. Agora não sei se conheço a cidade no city tour ou pela minha própria conta. Tenho três horas livres e sinceramente prefiro sentar na beira do Rio de la Plata com Ojos de Perro Azul, de García Marquez, e aproveitar o dia nessa tranquilidade que sinto por estar sozinho, de pança cheia e cheio de preocupações: Bush, Chavez, a crise do petróleo, a guerra do Iraque, as horas. Juro que a minha maior preocupação nos últimos meses tem sido o que vou cozinhar. E levando em consideração que as opções são carne com macarrão ou carne com macarrão, não tenho tido problemas. Hora de pedir a conta e ir ver o que tem de bom para se fazer em Colonia del Sacramento. O garçom não era tão meu amigo assim porque a cerveja me custou doze pesos.

3 comentários:

dorothéia disse...

deveras, um autista.

adori!

e eu conheço a colônia de sacramento. tem mto o que fazer não, né? comer e beber. "the drugstore", o restaurante mais legal.

o mais engraçado de lá é fazer a conversão dos pesos uruguaios. putz, eles são assim, merminho igual a tu: num valem naaaada!

hahahaha! beijo :*

Anônimo disse...

Sei pouco do autor:estudou no lubienska e,não por acaso,escreve muito bem.
E vice-versa.hahaha
Não podia deixar de elogiar o blog.
Assisti ao filme,e adorei a ironia sutil que ronda o texto,de um jeito que cutuca manias que fazem da gente vítimas desse sistema doido.
Além das coisas mais prosaicas,é claro.

muito massa.abraço :*

Jó disse...

boemia...
não assistio filme mas viajei na reflexão de quem tá longe..
Abraço malandro!