quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

O GATO FILÓSOFO

por Maria Rita Angeiras




Brigou com o lençol a noite inteira. Fazia frio. Fazia calor. Fazia frio. Fazia calor. Fazia frio. Fazia calor. Independentemente disso, a menina adorava edredon. Era a melhor coisa de dormir, assim como chocolate batido era a melhor coisa de acordar. Dizia que era como um abraço no meio da sonolência matinal. Uau, o mundo estava girando. Pediu pro mundo parar logo de girar porque ela precisava descer da cama e tocar a vida. Estirou o corpo no sofá e se espreguiçou até sentir que seus 1.65m tinham se transformado em 1.70m. Não sabia se comia alguma coisa depois do leite com chocolate. E por pensar em comida, lembrou que nos últimos tempos tinha enjoado de certas coisas. Pegou pavor de pipoca, de brinco grande, de esmalte colorido, de chocolate em barra, de arroz molhado, de macarrão, de cabelo grande. De tão cansada, o braço deslizou pelo sofá e foi até o chão, como se procurasse alisar os pêlos macios do seu pseudo-gato-imaginário, o Ulisses. Imaginou que ele fosse cinza, meio sem graça, sem jeito, mas com dois olhos vivos. Assim ela poderia olhar pra ele com cumplicidade quando sentisse medo do escuro ou quando tivesse dúvida entre pegar um filme ou passar a tarde de domingo cochilando. Ulisses entenderia só com um olhar, ela tinha certeza. Por outro lado, sabia que Ulisses só apareceria em sua vida como fruto de um acaso e não de uma decisão pensada. Um dia ele simplesmente surgiria na sua frente, andando na calçada, pedindo pra ser levado pra uma cama quentinha ou implorando um afago matinal. Ela também esperava por ele. Acreditava que até bicho é encontro de vida. Vai ser o Ulisses - não um Rex ou um Totó qualquer. Sentiu falta de Ulisses mesmo sem conhecê-lo. E chegou a sentir uma tristeza profunda por não saber quando ele viria. O peito ficou apertado. Não queria ir trabalhar. Queria mesmo era sentar ali no chão gelado e esperar por ele. Ulisses tinha páginas e páginas de histórias mesmo sem sequer ser. Tudo isso porque Clarice conhecia Lóri, que certa vez conheceu Ulisses, e que um dia ia conhecer a menina com a bunda sentada no chão.

3 comentários:

Anônimo disse...

Tás brincando né?! Tem juízo nessa cabeça... Bjos! Bel

Anônimo disse...

Tava com saudade daqui!
continuo com muita saudade de tu!
bjo,
Dida

Anônimo disse...

adorei a viagem de Ulisses. Gosto desse estilo e acho que tu se sai muito bem escrevendo assim. =)