quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

A BAILARINA DESAPRENDEU A AMAR

por Maria Rita Angeiras


- Você podia ter me acordado com um beijo.

Morri. Morri cem vezes ao escutar essa frase logo de manhã cedo. E só consegui escutar aquilo, porque fiquei perplexa demais. O barulho dos carros parou, as buzinas cessaram, o sol que invadia a janela do carro me cegou e todos os prédios desabaram como areia, como se não houvesse mais esperança. Será que ela tinha acordado ele pressionando suas costas com uma mão enquanto a outra ainda segurava a toalha branca que tinha colocado depois do banho? Ou teria sido com um grito vindo lá cozinha, depois de tomar seu café-da-manhã em pé, já com a cabeça nas dezenas que tinha que fazer naquele dia? Será que ela tinha colocado o despertador bem ao lado do ouvido dele, fazendo ele acordar sobressaltado e nervoso depois de uma noite calma de sono? Será que, em seguida, ela disparou todos os problemas da relação, suas carências afetivas, suas frustrações no trabalho e todos os planos que eles tinham e nunca realizaram? Ainda era quarta-feira. E ele só queria um beijo. Um beijo que ela não tinha mais tempo de dar porque estava sempre preocupada demais em se impor como mulher num mercado difícil, massacrante e machista. Ele só queria um beijo. Um beijo como todos os outros que já tinham dado, mas que poderia ter salvo aquele dia, ou pelo menos aquela manhã. Ele só queria um beijo. Um beijo para ele poder apostar novamente nas coisas boas da vida e acreditar que tudo poderia melhorar naquela semana, só porque ela estava lá. Ele só queria um beijo. E queria que ela velasse novamente seu sono e passasse a noite segurando sua mão, depois de trazer um copo de água gelada, como ele tanto gostava. E queria que ela voltasse a ser a menina bailarina, que deslizava pela casa, e que ele prometia um dia colocar dentro de uma caixa de música de madeira e guardar só para ele. E queria que ela voltasse a falar com aquela voz carinhosa de criança, dentro do apartamento que ele tinha comprado para os dois brincarem de casinha pro resto da vida. Ele só queria um beijo. E ela esqueceu de dar. E eu morri. Morri cem vezes com aquele amor atropelado bem na minha frente logo de manhã.

Um comentário:

Anônimo disse...

Surpreendente...
E é assim que ele se apresenta a nossa frente.
Importante parar e percebê-lo.

Mas como seu "lado que questiona é cem vezes mais esperto do que [o] que entende", não me admiram os questionamentos e o "estranhamento".

Sensível
Muito bom

Lori