por Maria Rita Angeiras
A menina do vestido vermelho não queria sentir borboletas no estômago, sentir a mão gelada de tanto nervoso ou sentir que seus pés saíram do chão por alguns segundos. Ela só queria sentir. Mas você deu um beijou nela e ela não sentiu nada. E ela quis fugir, mas estava tão aos pedaços por se trair que não conseguiu dar as costas e ir embora. Ficou ali e rezou para alguém aparecer e arrastar ela pelo braço até um lugar onde pudesse ouvir a pergunta “o que você está fazendo?”. Depois de oxigenar o cérebro impregnado de cigarro e música alta, ela tentaria responder, olhando fixamente para os carros na calçada. Pensando melhor, não responderia. Porque se trair é dívida tão pessoal que não se compartilha. Ou se compartilha em silêncio, com a simplicidade de quem olha e se entende. Ou se compartilha com atraso, às oito da noite de um domingo, depois da coisa toda ter sido digerida lá dentro. Ignorou tudo e foi viver, porque assim como se trai, também se perdoa. Em seguida decidiu ir embora, sentindo o quente-frio do escuro-claro do dia-noite. Achava que aquela era a melhor hora de todas as vinte e quatro. Porque é quando tudo coexiste com uma paz perturbadora. O frio e o calor; o barulho e o silêncio; as nuvens pretas e os primeiros raios de sol. Concluiu que poderia viver eternamente presa naquele limiar de vida. E lembrou de quando passeava na outra cidade naquele horário. Enquanto todos queriam ir pra casa, ela preferia descer do carro e ficar vendo o rio andar sem pressa, acariciando lentamente as margens da cidade cheia de casinhas coloridas. Mas como os rios daqui não são iguais aos de lá, ela preferiu voltar pra casa e dormir. Afinal, aquele lusco fusco acabaria logo. E era melhor começar a enfrentar o dia na cama a continuar acordada com aquela sensação horrível de ter se traído.
2 comentários:
"Porque se trair é dívida tão pessoal que não se compartilha. Ou se compartilha em silêncio, com a simplicidade de quem olha e se entende. Ou se compartilha com atraso, às oito da noite de um domingo, depois da coisa toda ter sido digerida lá dentro. Ignorou tudo e foi viver, porque assim como se trai, também se perdoa."
espero que o aprendizado e o perdão já tenham "chegado".
Feliz porque já já nos encontramos!
Dida.
Menina, que bela lição: "assim como se trai, também se perdoa".
Clarice diz que devemos tolerar em nós principalmente nossos defeitos. Essa tolerância quando exercitada, faz-nos ser mais tolerantes conosco (que devemos correr de "culpas") e com os outros, por extensão.
Ignore tudo e vá viver, diz a poetisa em calma felicidade.
bj
Amor incondicional
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