segunda-feira, 27 de julho de 2009

VULGARIZANDO AMORES

por Maria Rita Angeiras



O amor passa pelos meus olhos com uma freqüência tão desconcertante que, de repente, me pego amando várias pequenas coisas que se debruçam ao longo do meu caminho. O jeito doce da Diana Ross de dançar e balançar os ombros com as Supremes, dentro de um vestidinho azul adorável, enquanto regula a mão direita num movimento lateral suave, que eu tento imitar em baladas e jantares pessoais. Minhas meias engraçadas com um pequeno pompom bem atrás, que fazem com que eu me sinta um pouco como a Pipi Longstocking, e eu quase bato um pé no outro, achando que elas podem produzir algum tipo de magia escondida. O cheiro que fica no hall do elevador aos domingos, quando meus vizinhos juntam a família e fazem uma receita com um cheiro entorpecedor de frango com batatas, fazendo com que eu me transporte automaticamente para casa. A música ‘Miss Otis Regrets (She Unable To Lunch Today)’, do Cole Porter, e a música ‘I Love You (But You’re Green)’, dos Babyshambles, só porque elas têm esse nome incrível, que cavam um sorriso de canto de boca em mim toda vez que leio. O momento em que Elliot se convida, no filme Hannah and Her Sisters, para acompanhar Lee à próxima sessão dos Alcoólatras Anônimos, porque ele quer desesperadamente ficar perto dela, nem que seja numa dessas reuniões. Os trechos ‘I like my body when it is with your body’, e ‘Nobody, not even the rain, has such small hands’, do E. E. Cummings, porque eu sinto uma vontade louca de conhecer alguém bacana toda vez que leio esses poemas. As fotos em que Clara desafia a máquina fotográfica e a pessoa por trás dela, arregalando os olhos com uma expressão de quem pensa ‘De novo? Como vocês, humanos, são bobos’, porque eu tenho certeza que ela veio de algum lugar muito maior do que tudo isso aqui ou saiu direto de algum conto de Clarice Lispector ou de Isabel Allende. As dez ligações diárias que eu recebo do meu pai perguntando se tá tudo bem comigo, eufemismo de “filha, checa os pulsos, os batimentos cardíacos e os reflexos cerebrais, só pra eu dormir tranqüilo hoje”. Aqueles olhos doces. O jeito adorável e desajeitado que os homens têm de tirar a camisa puxando ela por trás, deixando o cabelo todo bagunçado. A palavra em inglês ‘rainbow’, só porque é gostosa de dizer mesmo, e às vezes me acalma, como um mantra super secreto. George Harrison rindo no segundo sete da música ‘Here Comes The Sun’, implacável em todos os meus dias de chuva. Os pássaros e as borboletas da parede do meu apartamento, porque às vezes eu desconfio que eles voam enquanto eu durmo no quarto. As ombreiras, as roupinhas cafonas e as performances do Brandon Flowers, dos Killers. O delicioso sotaque inglês do Pete Doherty na exata hora em que ele canta ‘and to lie to you, rather than hurt you?’, em ‘Music When The Lights Go Out’. Todas as fotos do Henri Cartier-Bresson, o quadro ‘Rain, Steam and Speed’, do William Turner, e o quadro ‘Composition IX’, do Kandinsky. Quem tira os óculos do dia-a-dia e enxerga a menina por trás de todos esses clichêzinhos de escritora de cabecinha ferrada. E tantas outras coisas e pessoas que vou amar hoje, amanhã e depois. Até o dia em que não couber mais tanto amor dentro do meu corpo. Ou pelo menos até o dia em que deixar de amar esses detalhes e criar coragem pra amar alguém por inteiro.

6 comentários:

Edízia Lessa disse...

Eita, Rafa inspirando.. Mas, como bem disse o André, dureza escrever a próxima crônica depois do "Licença que eu vou partir".. Isso é bom, muito bom eu diria.. Rafa no seu aprendizado fez a gente aprender também a sentir saudades de saudade mermo!
Cantinho bom esse, sempre muito gostoso começar uma segunda assim.. Tão viciando, quero nem saber quando chegar a fase da abstinência, ai lascou-se!

Unknown disse...

Eu também amo "rainbow" e o sotaque inglês...

Anônimo disse...

Ô "cabecinha ferrada" abençoada,sensível,hilária,atenta às coisas do cotidiano, às pessoas, às cenas....
São seus melhores textos, cronista.
Amo o que vc escreve, como escreve.
Assim como você, também amo seus meigos olhos.
Já sei que está curada.
bj

Lori

tita disse...

Mesmo amando alguém por inteiro, continua amanndo todas essas outras coisas, porque são lindas demais.
Bom te ler!
=)

Luna Freire disse...

O amor está aí: nas pequenas coisas, nos detalhes que se escondem sob as superfícies, nos cheiros e temperos, texturas e lembranças...
O amor é tão simples. Qualquer menina os vê. Eis o problema: nem todos tiram os óculos do dia-a-dia para enxergar a menina dentro de si.

Anônimo disse...

Tive vontade de ver todos esses filmes/vídeos (alguns vi), músicas e quadros (até busquei um na internet.
Adorei esse texto.