por Rafael Moreno
Deixo meu quarto, os sábados com cerveja a partir das onze da manhã, a gaveta com chave onde ficam os meus documentos, noventa e sete livros e mais tantos emprestados por aí, deixo alguns cds que nunca passei para mp3, o sofá ao lado da janela que eu abria com os pés, me esticando um bocado, os canais da net com o controle remoto quebrado e com pilhas sempre fracas, deixo minhas meias, duas calças, algumas camisas que Tuca certamente fará proveito, minhas casas da Torre e de Casa Forte, meus almoços de domingo com minha querida madre, meu terno que custou uma nota e só foi usado duas vezes, a gravata que tanto demorei para escolher, meu quadro da Quilmes, outros com Mundo, Mundo, Vasto Mundo, de Drummond e O Poeta É Um Fingidor, de Pessoa, deixo o quadro que Mari me deu, de Picasso, e que ocupa o lugar principal do meu quarto, porque veio com dedicatória e um beijo em alemão, deixo o quadro que Vovó pintou e me deu pouco antes de falecer, que é o bem mais valioso que tenho na vida, deixo a segunda gaveta com recibos antigos, cadarços de sapatos, brinquedos da minha infância – peão, badoque, bolas de gude –, ainda na gaveta, deixo pastas que não sei por que continuam ali, camisinhas vencidas, um caderno antigo, de quando eu tinha dezesseis anos e escrevia umas músicas muito melosas durante as aulas, deixo os lençóis rasgados, coisa de casa sem mulher, o travesseiro pequeno que Cecília usava até roubar o grande de mim, deixo o miúdo de galinha que dona Severina cozinhava em grandes quantidades, o sarapatel, a charque desfiada, o escondidinho, o arrumadinho, o bode guisado, o prato feito, a goiabada cascão, os sucos de cajá, goiada, acerola, maracujá e mangaba, o meu pandeiro de couro, que ficou no carro de alguém, o tamborim sem baqueta que, de tão pouco uso, virou objeto de decoração, deixo o chorinho da Chesf, os sambas do Fiteiro, o terrível repertório da banda Chitara, local de tanta reclamação, braços cruzados e, mesmo assim, de alguns dos melhores momentos que tive com a turma, deixo, com saudades, as Chitaretes e, principalmente, a equipe de Olinda, deixo a minha cama de casal, o controle do ar que ficava do lado, a caixa de tênis onde juntei quase quatrocentos reais de moedas, deixo o meu carro com Pedrinho e, com ele, deixo também a minha vaga na Ampla, deixo o cafezinho de Renatinha, que só durou até antes da fusão com a Ponto, minha sala de reunião que chamo de minha porque passava o dia lá, solitário, deixo o parque da Jaqueira e a vontade de caminhar que nunca tive, inclusive, deixo meu tênis de caminhar na casa do Tarta, bem como uma camisa que comprei no Chile, deixo as conversas de amanhecer o dia com Marcota, com Cartola e Chico Buarque escrevendo aquilo que a gente tentava dizer, deixo o caboclinho, o break e o axé, as promessas de A gente precisa se ver mais vezes, conversas inacabadas que não vingarão pelo msn, amizades recentes que talvez sejam interrompidas, deixo as pessoas que se encontra em supermercados e shoppings centers, os primos, o Natal, o São João, os aniversários e os domingos na casa de vovô, que agora tem blog e tudo, deixo a pelada da segunda feira, minhas lojas preferidas, o sorvete da Fri-Sabor, que segue forte com seu hífen, deixo a banca de revista do Carrefour, a Piauí, a Bravo e a Super Interessante, as havaianas que esqueci de colocar na mala, os perfumes que não usava, mas estavam no banheiro, a mesa de vidro lá de casa, a vista da varanda, meu ventilador barulhento, marca-páginas espalhados pela prateleira, deixo minhas ilustrações com dedicatória sincera para os amigos que me visitaram um dia antes da viagem e, sem saber, me acalmaram um bocado, deixo o carangueio, as cervejas de seiscentos mililitros, a Skol e a Bohemia, o caldinho de feijão, o sururu, o marisco, a ostra e o aratu, o vinagrete, o Boi no Bafo, os almoços semanais com Leo, as colagens do To Ligado Boe, deixo o pessoal que estudou comigo no Lubienska e na faculdade, com encontros que demorarão ainda mais para acontecer, deixo a quadra de futebol lá do prédio onde não joguei mais que vinte vezes, a piscina que só entrei duas, a minha vaga na garagem, deixo a casa cor de Mangueira, verde e rosa, lá de Maria Farinha e, dentro dela, deixo toda a minha infância de bicicleta, pés descalços, jogos de bola, volley, speddy e frescoball, Maria Sanduba, pescarias e guerras de bomba d’água no carnaval, deixo o Parú, a Coroa do Avião, nossa lancha que nunca mais andei, do mar, deixo as praias em geral, com o peito apertado, deixo o jacaré, o caldo, o boto, o sal que gruda no corpo, a Casa de Banhos, a vista da ponte do Cabanga sobre o Capibaribe, Cão Sem Plumas que nunca cansei de olhar, deixo o coração e porta retratos vazios, porque as fotos de Tuca, Mari, Mainha e Painho vieram comigo.
Deixo os versos que escrevi,
As cantigas que cantei,
Cinco ou seis coisas que eu sei
E um milhão que eu esqueci.
Deixo este mundo daqui,
Selva com lei de cassino;
Vou renascer num menino,
Num país além do mar...
Licença, que eu vou rodar
No carrossel do destino.
Enquanto eu puder viver
Tudo o que o coração sente,
O tempo estará presente
Passando sem resistir.
Na hora que eu for partir
Para as nuvens do divino,
Que a viola seja o sino
Tocando pra me guiar...
Licença, que eu vou rodar
No carrossel do destino...
sábado, 4 de julho de 2009
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37 comentários:
Rafa mermão, putaquepariu... Tu tás se garantindo cada vez mais primo. Muito bom mesmo o texto. Só esquecesse de dizer que deixou o primo que nasceu com a cabeça menor que os outros (bichinho) e que tu e Digo nunca aperriavam... hahahah.
Abração, se cuida por aí
Vixe Maria, pq tu és assim, hein?!
Ô Rafa, q coisa linda... chega me deu uma nostalgia, como se eu tivesse indo viajar tb, deixando um monte de coisas...
"as promessas de A gente precisa se ver mais vezes, conversas inacabadas que não vingarão pelo msn, amizades recentes que talvez sejam interrompidas"
Espero q esse não seja o nosso caso ;)
Quando eu resolver aparecer por aí, a gente toma aquela cerveja.
Se cuida.
Bjo,
Danda.
..levando toda a coragem que o desejo de vida puder me presentear.
Absolutamente verdadeiro este texto, parabéns por ele e pela coragem invejável pq realmente algumas experiências nesta vida são pra poucos destemidos.
tenho pena de quem for publicar o próximo texto. vai parecer pequeno perto desse. ritinha, escreve vc, tá certo?
andré muhle
Afee.. que a vida não pede licença, que o destino não está para brincadeira e que mesmo sendo isso tudo, TUDO o que você pediu.. bate uma pontada de pedir "sensa"!
Muito lindo o texto, muito lindo mesmo!
texto fuderoso mago.
como disse andré, coitado do próximo.
te cuida.
abração
Lindo texto, Mó!Ainda bem que eu ganhei dedicatória no desenho. Ontem a Chitara tocou...Sem pandeiro... As chitarets sentiram falta! E todo o resto também...
Beijo,
Mari
fuderoso dupla.
embreve vamos duplar de novo em sao paulo ou em algum lugar do mundo:)
abração
james williams
A gente deu altas paradinhas quando tocou pagunça...hábito e condicionamento é foda! Texto foda! Abraço, Hermano!
Deixasse muito coisa mesmo por aqui. Dei uma geral no teu quarto pra ver o que eu podia aproveitar, mas depois de alguns minutos, resolvi não mexer em nada, pra ter certeza da sua volta.
também deixasse os olhos do teu irmão umedecidos, ao ler esse texto. E isso, não era pra ter deixado...
Abraços,
Artur M.
Amo gente que se joga :)
Boa sorte!
Fields, os textos de despedida e saudade são sempre os mais densos.
Fica aqui tb o carinho e os teus, os que você cativou.
Deixasse aqui uma delas, que espera por notícias. Palavras novas, ações inventadas. Deixasse com a gente duplicação que tu levou. Com muito sorriso e confiança.
Um xero.
Só não deixe de escrever aqui tá!
Muito bom, parabéns!
Mora, tu sabe que sou uma manteiga né, to pagando mico no tabalho, só tu mesmo pra fazer isso comigo. Não preciso nem dizer que amei o texto. A palavra deixar pra mim da um sentido de se perder e nunca mais encontrar, prefiro dizer que você conquistou ou guardou essas coisas todas, porque serão suas pra sempre e estarão aqui sempre te esperando pra quando você resolver visitar a gente.
Só não digo te amo porque banalizaram.heheheheheh
beijo grande e se cuida por ai.
e deixa uma saudade danada também...
Beijo,
Babi
"deixasse" uma irmã chorosa que te ama muito.
Mari M.
caralho... que o relógio ande duas vezes mais rápido pra esse tempo passar logo e eu poder matar um pouco dessa saudade chata que já teima em existir! Um abraço apertado meu irmão! E tu faz uma falta da porra!
Uma coisa você não vai deixar: Os amigos virtuais! :)
Pelo menos eu espero que não...
Beijos!
TatChi
Mora, texto genial. E o comentário de Arthur acima também.
Tu deixasse muita coisa sim, é verdade. Mas tas levando contigo uma menininha muito preciosa que me fará muita falta também.
Agora, só complementando: o seu pandeiro de couro estava no meu carro até essa semana.
Agora ele está na estante de Rafael e só sairá de lá quando estivermos arrumando a nossa mala para irmos ao seu encontro. Ele vai junto, claro.
Um beijo já saudoso.
Mora, texto muito lindo mesmo. Lágrimas.... e muita saudade de tu. Tu deixa sim, mt coracao apertado com saudade, mt torcida forte por tu, e mt gente fazendo planos de ir te ver logo menos. Tas fazendo muita falta.. Te amo.
Beijos
Deixa de frescura e volta logo porra. Do caralho o texto. Mesmo. Abração.
É... Como me preveniste via MSN, identifiquei-me. Assim como és grato a Cartola e a Chico, agradeço por teres expressado o que sinto.
Falou, meu véio. Sorte na vida.
Felipe
Rafinha, você deixou muito mais que tudo isso... Deixou muitos corações saudosos e apertadinhos... Mas claro que isso você sabe.
Muito lindo o texto primo! São lembranças suas que mexe com as de todos que fazem parte de tua história. Mexe com cada um de nós! Parabéns!! Lindo lindo lindo!!Beijão e se cuida!
Marina Lima
Deixou também uma torcida danada, que espera um monte de notícia boa daí. Sucesso aí, Rafa.
Sou fã de carteirinha desse blog,apesar de nunca ter feito um comentário... (tem gente que vai ficar com ciúmes). Esse seu texto me tocou profundamente,e, tantas vezes eu o leia, tantas eu choro! Parabéns Rafa!
Tas é feliz, né?
Com a quantidade de coisa que tu deixou aqui, tem gente que só a porra pra comentar. Hahaha.
Levou o gtalk, Rafa. E também o MSN e alguns pesitos pra ligar de qualquer orelhão.
;)
Chore não.
A gente que fica tá na torcida. Pode acreditar.
Bêêêêjo.
Além de tudo isso, Rafinha, você deixou uma família inteira cheia de orgulho e saudades.
E, agora, quem vai ganhar são os argentinos.
Sorte e felicidade pra tu. Sempre!
Porra mora...
senti tudo isso na ida...
mas o melhor é ter tudo de novo
na volta...esqueça daqui e viva tudo o q puder por aí, pq nós vamos estar esperando vcs do mesmo jeitinho! Lindo texto...
Abço
que lindo, rafa. tu é foda. parece que eu parti hoje, só que já faz um ano. nem eu sabia que tava com tanta saudade das coisas que deixei em casa. sorte. muita.
Lindo! Boa sorte nessa nossa caminhada! E que o "menino,
Num país além do mar..." possa tirar proveito, como é próprio dos meninos(as), de todo esse NOVO, encontrando, mesmo mergulhado na saudade, um mundo de coisas boas e gostosas de viver.
Tudo de bom pra vc!!!
caralho...
Pareceu que eu tava vendo um filme da minha vida... Só que uma cena que ainda não chegou - o filme só tá na metade.
Vai fundo.
Muito foda Rafa!
Um abração do teu primo, Digo
Rafa, foi um dos textos mais bonitos e tocantes que já li. E você sabe que leio muito... Como já foi dito aqui, você deixou muito mais coisa do que disse: deixou saudade, deixou vontade de lhe abraçar e de lhe olhar nos olhos pra que vc possa ver a emoção que provocou, e, deixou ainda, a certeza de que um dia será reconhecido como um dos grandes escritores nacionais. Parabéns. Cristina Roichman
Talento e coragem vc já tem, então desejo muita felicidade e sucesso, que são quem sustenta as 2 primeiras! =]
"Audaces fortuna iuvat".
Anne Cavalcanti
fudeno!
Rafa,
Lindo texto!
Muita sorte pra você.
talento vc já tem de sobra!
: )
Bjs
Lela
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