segunda-feira, 19 de outubro de 2009

O HOMEM BUFÊ

por Maria Rita Angeiras


De todos os tipos de caras que a gente encontra por aí, nenhum me dá mais preguiça emocional do que o homem bufê. Como identificar um? Fácil. Ele serve de tudo, mas não é especialista em absolutamente nada. É o clássico feijoada com strogonoff e salada. Coloca a maior banca de que sabe demais, de música erudita a punk rock, de blockbusters a curtas iranianos, de best-sellers a clássicos da literatura, de pintores renascentistas a artistas conceituais, enfim, uma lista longa de A a Z dos mais diversos assuntos. Um chato inseguro, fantasiado de estudante de curso de filosofia, sempre preocupado em exibir seu repertório de voraz consumidor dessa cultura in box. É o tipo de cara que lê a orelha de um livro, decora a sinopse de um filme, memoriza a crítica de uma peça e ouve os primeiros quinze segundos de uma música. Ele sabe de tudo um pouco, mas não sabe muito sobre nada. Em um hospital, assumiria mais ou menos o papel do clínico geral. Conhece um pouco de pulmão, um pouco de coração, um pouco de cada área, mas no final da consulta encaminha você pra alguém que realmente entende do assunto. A única diferença é que esse tipo de homem nunca estuda o suficiente pra passar em medicina, por exemplo. Livro de anatomia? Ele leria até a página cinco, só pra ter uma ideia. Então fique à vontade e faça o teste: o que o homem bufê sabe sobre poesia? ‘O Soneto da Felicidade’. Sobre Nietzsche? ‘Deus está morto’. Sobre Woody Allen? ‘Pegou a enteada’. Além disso, sobram no seu vocabulário palavras empregadas de modo genérico e vago, como ‘releitura’, ‘artsy’, ‘coletivo’, ‘experimental’, ‘estética’ e ‘colagem’. E ele ainda faz aquela cara de natureza morta em shows e exposições, simulando um possível encantamento dos sentidos. O homem bufê, na minha opinião, é um bombardeio de clichês culturais e aquela típica despreocupação com o guarda-roupa representa apenas o seu tão desejado passaporte para a cultura. Grosseiramente falsificado, mas que ainda engana muita gente.



blog pessoal: http://eusouurgente.blogspot.com

11 comentários:

Anônimo disse...

nossa... já tive homens bufês em minha vida!
pura identificação com esse texto!

Anônimo disse...

homens bufês
mulheres bufês

há de tudo nesse estranho mundo multicultural
Eu por exemplo ainda me admiro com um hotel "friendly gay"
Isso que dá confiar na internet

Anônimo disse...

Menina, vai a um tarólogo
Manda ler tua mao (aqui tem várias tiendas com isso)
Faz umas maldades pra Sto Antonio
Na dúvida, né...


Quem sabe essa praga nao se acaba

Anônimo disse...

caralho, esse sou eu!

D. Rodriguez disse...

Adorei o texto, no mundo está cheio de pessoas bufês e nesse caso não vale ver para crer.

Anônimo disse...

Hahaha... muito bom! Fica longe desse tipinho sis! Pq ninguém merece... Adorei o texto!
Beijossssssssssssssssssssssssss...
IA

Anônimo disse...

Eu continuo sonhando com um bufê de homens...

Anônimo disse...

Fiquei com pena da bola da vez...

Anônimo disse...

Antes, que fique claro: "anônimo" por não ter conta aqui. Meu nome é Antonio, assim, sem acento. Eu não gosto de Nietzsche, Woody Allen, Poe, Vinícius, ou coisas vindas do Rilke - apesar de ter lido (ou visto, no caso de WA) todos por obrigação do ofício. Mas o seu texto me tocou, de certa forma. Fiquei me perguntando quem é essa moça que fala em "bombardeios de clichês culturais" e trabalha com publicidade. Ironia do destino, ficção disfarçada ou apenas uma mulher bufê?

um dos três disse...

antonio, acho legítima a sua reflexão. pode ser ironia do destino, ficção disfarçada ou apenas uma mulher bufê, como você colocou. não sei. o que sei é que na literatura, assim como acontece na propaganda, o exercício criativo perde a leveza quando as pessoas começam a levar tudo muito a sério.

obrigada pela contribuição.
beijo grande

ritinha

Unknown disse...

Adoro quando a carapuça serve, nem que seja só um pouquinho...Um homem nao é capaz de identificar "o homem bufe", mas as mulheres...ah...as um tanto quanto espertas, essas sim...de longe ou com meia hora de olho no olho. Excelente texto!Parabens!