por Rafael Moreno
Raiva. Isso era o que devia sentir. Raiva, porque tinha razão. Aquela briga era sua. Havia gritado mais alto do que ele. Aquela briga era sua. Era sua porque havia gritado mais alto do que ele e batido com força a porta do quarto. Sempre fazia isso quando brigavam. Virou as coisas na estante procurando um livro, uma revista, qualquer coisa, enquanto mentalizava a cafeteria, escolhendo o lugar onde sentaria, o doce que pediria, quanto tempo ficaria antes de voltar para casa. Era imprescindível que voltasse depois dele, que agora estava no banheiro. Escutava o barulho da água caindo na pia e adivinhava que estava escovando os dentes sem fechar a torneira, mais uma vez. Tinha a impressão de que fazia de propósito pelo simples fato dela ser simpatizante, ainda que pouco ativa, do Greenpeace. Iria sair, estava decidida. Mas, antes de calçar as sandálias, deixou-se cair na cama e se enrolou nos lençóis na esperança de que ele, ao vê-la assim, triste, mirando infinitamente a parede, de costas para a porta, sentisse pena e deitasse com ela, ainda que virado para o outro lado, ainda que mudo, mas que deitasse com ela, só de jeans que era como estava antes de bater a porta do banheiro, com força também, e abrir a torneira, deixando a água cair só para irritá-la. Podia ouvir a água caindo na pia e até mesmo escutar a escova de dentes passando com força sobre os seus dentes. Ficou ali, na cama, esperando por ele com um olhar triste para a parede, que é como fazem as mulheres quando querem as pazes. Ficou ali sendo vitima, sendo pequena, sendo indefesa, sendo arrependida, ofendida. Descobriu que só se ganha uma briga quando se faz as pazes. E a raiva passava rápido com ela. Não conseguia brigar por muito tempo, desde pequena. Ainda mirando a parede, sentiu a porta do quarto se abrir e os passos dele, barulhentos, irritados, caminharem até a cama para, pouco depois, virarem para o guarda-roupa. Ouvia gavetas abrindo e quase conseguia ver as mãos dele retirando a camisa, que estava pendurada em um cabide. Depois as mesmas mãos encontraram sapatos e calçaram seus pés. Ia sem meias. E nunca andava sem meias. Em momento nenhum ele olhou a cama novamente e, quando fechou a porta, o fez devagar, silenciosamente. Ela continuou mirando o branco da parede. No fundo sabia que em pouco tempo ele voltaria. Conseguia vê-lo chegando no bar, pedindo uma cerveja, um copo e amendoins. Conseguia vê-lo fumando com força. Puxando com força a fumaça, deixando que o cigarro o fumasse. Conseguia vê-lo olhando o movimento das ruas. Desamarrando e amarrando os sapatos como fazia sempre que estava entediado. Conseguia vê-lo lendo o jornal rapidamente porque nunca teve paciência para ler jornais. Depois pediria outra cerveja e só a terminaria para não estragar, porque uma e meia era o seu limite, o seu costume. Foi mais ou menos nesse momento em que ela dormiu. Muito tempo depois acordou, com a boca seca. Com o quarto escuro. Com o rosto ainda voltado para a parede. Com a sala vazia. Percorreu todos os lugares da casa, até mesmo a despensa e a área de serviço, que é o que se faz quando se procura algo que já se sabe que não vai encontrar. Percorreu então sinais de seu regresso: um cigarro apagado, o controle da televisão atrás do sofá, os sapatos jogados na entrada da casa. Nunca havia demorado tanto. A essa hora já estaria na oitava cerveja. Impossível, porque ele só bebia uma e meia. Era o seu limite, seu costume. Entrou no banheiro mais uma vez e depois voltou para a cama. Enrolada no lençol, mirando a parede, esperou o sono voltar enquanto tentava esquecer que ele havia saído de vez, que ele não voltaria, que ele não estava tomando cerveja, que ele já havia terminado o jornal porque no banheiro faltava o único que era seu naquela casa, faltava o único que ele havia levado em seis meses de relação, que era a escova de dentes.
24 comentários:
Achei vocês (três) hoje. Texto sagaz. Gostei...
Gostei!Perfect!
muito bom esse retrato da dura vida entre duas pessoas, viver só de amor não basta.
abraço!
dá raiva esse teu olhar nos pequenos detalhes.
muito bom :)
Perfeito, Moreno!
Perfeito, Moreno! Muito bom! Deu até pra sentir a angustia da nega esperando!
Taí, Mora!!! esse eu achei um dos melhores! Deve ser a Quilmes! Parabéns!
Muito bom, Rafa.
abração
Gostei ermano, deu pra sentir o buraco no estômago dos dois, ícore!
que aflicao!!!incrivel!!!
ô rafa, muito bom, como sempre!
fiquei morrendo de pena dela...
bjo!
realmente, mulheres sempre querem fazer as pazes! ótimo texto!
agora, 6 meses com a mesma escova? tá na hora de trocar, hein! hahaha
detalhes que o coracao atenta.
e eu, como ela, achando que ele ia voltar.
:/
Concordo com o Balaka!!!Um dos melhores, Mó!
Genial!
rafa, tu tem olho biônico mesmo. putz, bomdemai.
Putz, tu me enche de orgulho sempre Mora. Muito bom, mínimos detalhes, que quem diria que tu desse jeito notaria. Amei.
Ótimo texto, fez do caso comum o belo!
hum, tem algunas coisitas adorables por aqui.
Ainda bem que, pra mim, ele voltou ... sempre bom o eles sabem demais !!!
haha muito bom!!
parabéns!
Incrível como você ainda consegue surpreender, Rafinha. Acho que todo mundo que leu sentiu a mesma aflição do casal. Parabéns!
Rafinha muuuito bom! Fiquei aqui, como todo mundo, na expectativa da reconciliação =P
Beijão
Incrível!
Dida.
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