por Maria Rita Angeiras
O sujeito não vai aguentar o aperto no peito. Vai se entregar quando descobrir o passo atrás que se despedia sem querer deixar, tropeçando no paralelepípedo o soluço da bebida, enquanto o braço dela corrigia o erro, segurando o dele bem forte. Vai equilibrar o cotovelo na mesa, apoiar o queixo na mão e fazer do bar da esquina sua segunda casa, tentando matar no gole a verdade que não desce, que amarga, que engasga. Vai lembrar do sorriso leve, mas vai recriar na cabeça a expressão triste, porque assim talvez ela sinta saudade, porque assim talvez ela não tenha tocado a vida, porque assim talvez ela espere. Vai procurar seu cabelo bagunçado nos lugares, caçar seu cheiro nos cantos, enquanto a outra reclina a cabeça no seu ombro roubado, investindo num eterno amor vulgar de cinco minutos. Vai batucar sonho no banco, disfarçando a saudade no meio do samba, mas o coração bate mais forte, ele sabe, ele sente, ele prefere não ouvir. Vai esfregar as palmas no rosto, apertar com força as pálpebras, que escondem por debaixo aquele olhar que procura a porta e sai do lugar correndo, deixando o corpo pra trás, velado por todas as outras mulheres que nem fazem seu tipo. Vai lembrar dos diálogos como um mantra e vai desejar morrer logo, só pra não sofrer morrendo aos poucos, porque assim ele para de lembrar dela de uma vez e ela para de sofrer por ele tantas vezes. Vai bater no ombro, beliscar o braço, fechar a porta no dedo e agradecer cada segundo em que a cabeça se distrai e foca em outra dor que não aquela. Vai procurar no tórax o lado certo do coração, ficando em dúvida entre o esquerdo e o direito, e vai descobrir lá mesmo, num pedaço abandonado do recinto, que ama a mulher que nunca disse que amou. O sujeito não vai aguentar o aperto no peito. Ele não vai.
7 comentários:
Um amigo costuma dizer que não é que não sintam. A dificuldade é de se expressar.
Sensível relato/texto. As usually.
bjs
Lori
acho lindos os teus textos...
vou colocar esse no meu blog, tá? colocarei com os créditos e com o link!
gosto muito do que você escreve.
parabéns
Maria Rita, você me humilha com esses textos, :).
Muito bom, como sempre.
Nossa, espero que isso aconteça (logo) comigo. Hahahahaha... Muito bom o texto!
sem palavras.
Dida.
Querida,
Parabéns pelo texto... tocou no meu intimo.
Katyane
Uau.
Saudade machuca e não tem dó. Não tem.
BjO
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