por André Muhle
Por bem ou por mal, algumas coisas vão acompanhar nossas vidas para sempre. Por bem, elas servirão de inspiração para uma série de outras coisas. Por mal, elas ficarão nos fazendo sentir culpados por nossos erros e tropeços. Seja como for, é sempre melhor se concentrar nas primeiras. Hoje eu estou terminando a minha mudança. E acreditem, mudar de apartamento é como mudar de namorada. Você começa a comparar algumas questões como espaço, barulho e economia. Na grande maioria das vezes você termina por descobrir que não fez um bom negócio. Nem com a namorada, nem com o apartamento. Comparação é assim. As coisas ruins se sobressaem às coisas boas. Entre as caixas com os enfeites das prateleiras e os sacos plásticos com roupas e cartas antigas, encontrei uma dessas coisas que vão acompanhar minha vida para sempre. Um livro de capa cinza, todo desgastado, com a orelha se rasgando e as bordas se estufando. O Apanhador no Campo de Centeio. A última vez que o li, eu devia ter uns 18 anos. E lembro bem que ao final de cada releitura, marcava um “x” na última página. Para minha surpresa eu já tinha lido 7 vezes. Em se tratando de um livro, é coisa pra cacete. Foi um dos livros mais simples que já li na vida. E nunca consigo me esquecer daquele parágrafo do capítulo 16. O personagem do livro é um garoto cheio de problemas que foi expulso do colégio e tudo mais. Na última visita que ele fez pela escola, a um museu de história natural em Nova Iorque, ele diz assim:
"Mas a melhor coisa do museu é que nada lá parecia mudar de posição. Ninguém se mexia. A gente podia ir lá cem mil vezes, e aquele esquimó ia estar sempre acabando de pescar os dois peixes, os pássaros iam estar ainda a caminho do sul, os veados matando a sede no laguinho, com suas galhadas e suas pernas finas tão bonitinhas, e a índia de peito de fora ainda ia estar tecendo o mesmo cobertor. Ninguém seria diferente. A única coisa diferente seríamos nós. Não que a gente tivesse envelhecido nem nada. Não era bem isso. A gente estaria diferente, só isso. Podia estar metido num sobretudo, dessa vez. Ou o outro garoto, companheiro de fila da visita anterior, não tinha vindo porque estava com caxumba e a gente teria outro companheiro. Ou então a gente tinha ouvido o pai e a mãe da gente terem a maior briga no banheiro. Ou então a gente tinha acabado de passar, na rua, por uma poça d'água com um arco-íris de gasolina dentro dela. Quer dizer, a gente estaria diferente, de um jeito qualquer - não sei explicar direito, mas o negócio é assim mesmo."
Acreditem, eu escreveria isso na minha lápide. Sempre que viajo pra algum lugar, tento me concentrar nas coisas que não vão mudar nunca: uma árvore, um poste, uma pedra na calçada. Fico pensando que quando eu voltar lá, daqui há uns 40 anos, minha vida vai ser tão diferente. Filhos, netos, ex-mulheres. Mas a bendita da pedra vai continuar lá. Talvez um pouco mais desgastada, mais acabada, mas ainda assim, a mesma pedra. Isso dá uma tristeza estranha. Uma angústia. Uma amargura. Sei dizer não.
14 comentários:
eu fico angustiada porque me sinto breve demais ao lado de uma pedra. mas tu disse uma vez que não tem medo de ser assim, então essa tua angústia é diferente da minha e aí, eu também não sei dizer não. :)
Será que Recife vai estar igual e eu diferente? Massa o texto André, Parabéns.
7 vezes? Tu vai acabar matando um John Lennon.
Sabe o que não muda nunca? A melancolia dos teus textos. Ainda bem.
“1001 lugares pra se conhecer antes de morrer”, conhece? É uma ótima dica de livro pra resolver a angústia da pedra viu?! Rs.. E sério: texto delicioso! Cheio de entrelinhas peculiares que somente boas mudanças vividas seriam capazes de se fazer entender. Que bom perceber isso. (O menino muhle tá crescendo bonito né Cris? Dá gosto de ‘ler’!)
Ainda bem que você voltou a escrever. Tava com saudades dos seus textos! Beijos
Acredito que a única coisa que não vai mudar nunca, e que mesmo assim te deixa feliz, é aquela ponte perto de Paris. ;)
Beijo, adorei o texto.
Acho que as pessoas acabam por se preocupar demais com as coisas que sempre vão mudar, para notas aquelas que sempre estão ali e nunca vão mudar.
Adorei o texto e provavelmente vou querer ler o livro.
beijos
A Torre Eiffel. Tava esperando por ela, junto às pedras e postes.
Quem lê um livro sete vezes e se promete visitar Paris uma vez no ano (pelo menos) deve mesmo ter o parágrafo do capítulo 16 na lápide. Para ser lido trocentas vezes e continuar igual.
Escreva mais frequentemente. Faz bem aos outros. :)
Beijo, Fofo do meu cuore.
O futuro não se sabe, a gente muda o tempo todo e nunca sabe pra que rumo vai.
Amei o texto.
adoro esse livro.
adorei o texto.
melancólico como uma música do radiohead.
adoro isso.
beijão em tu,
Maria Cecília
Será que temos uma porção imutável?
Será que os sentimentos não tragam a imutabilidade das pedras?
Questões imateriais, inexatas... necessárias.
Bela viagem introspectiva.
André, andando pelo glob deparei-me com seu texto. Senti-me bem, talvez pelo fato de pensar e sentir as mesmas coisas...Parabéns!
Como dizia Franz Kafka: "O que é vivo não comporta cálculo."
Faça o bem: continue escrevendo.
Abraço.
augustodopublico@hotmail.com
Muito bom.
Cara, acho os teus textos incríveis.
:)
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