sábado, 13 de março de 2010

FILMINHO

por André Muhle

Espero de verdade que esse tipo de coisa não aconteça apenas comigo.
Só assim eu vou me sentir uma pessoa menos problemática.
Acontece que desde os 13 anos, eu penso num troço esquisito.
Fico imaginando que de alguma maneira a minha vida está sendo assistida lá em cima.
É como se existisse uma sala de cinema com uma plaquinha escrita “André Muhle” na frente.
E aí vão entrando meus amigos e parentes que já tenham morrido,
todos com sacos enormes de pipoca e copões de refrigerante.
Tem também aquele povo que não me conhece, mas que vai assistir mesmo assim
na esperança de ocupar melhor suas tardes de quarta feira.
É meio mórbido, eu sei. Mas é assim e pronto.
Por outro lado, isso me ajuda em vários pontos, principalmente quando estou sozinho
em algum lugar. Sabe quando você pensa “poxa, queria que tivesse mais alguém aqui pra eu dividir isso”?
Então, eu não penso assim. Porque sei que a platéia está todinha lá com os olhos
vidrados na tela. Talvez até com óculos 3D, já que agora tá na moda.
Bom, o que eu quero dizer e não to conseguindo até agora é que pensar assim
faz eu querer, sempre, deixar minha vida menos enfadonha e monótona.
Assim a platéia não pega no sono nem fica olhando pro celular de 20 em 20 minutos.
Semana passada eu tava vendo aquele filme Transformers e uma cena me chamou a atenção.
Logo no início, quando pela primeira vez o robô gigante se transforma num carro e abre
automaticamente a porta para os mocinhos do filme entrarem.
Enquanto a menina bonitinha parece hesitar, o que é bem plausível,
o garotão vira pra ela e pergunta assim “Daqui a 50 anos, você vai querer dizer
que entrou ou que não entrou nesse carro?”.
Imediatamente ela pulou pro banco de passageiros.
Sempre que escuto comentários do tipo “tem que ser muito louco pra fazer
uma coisa dessas”, “tem que ter muita coragem pra ir morar naquele fim de mundo”
ou “só uma pessoa sem juízo abriria mão de um futuro tão promissor”,
eu tenho a plena convicção de que estou no caminho certo. Juro.
Talvez porque toda vez em que cogite seguir o caminho mais óbvio, mais seguro,
eu me lembre da platéia lá de cima. De como eles devem estar torcendo pelas cenas de
emoção, de suspense. Entre um sapato preto e um verde, eu vou sempre preferir o verde.
Entre um país comum e outro onde eu vou me perder, eu vou preferir o segundo.
Entre abrir uma porta onde do outro lado eu sei que está uma loira sensual de lingerie
e outra porta onde o que está por trás é um grande mistério, um suspense,
é claro que eu vou abrir a porta da loira, até porque eu não sou idiota.
Bom, é isso. Resumindo tudo isso então: dá próxima vez que você se deparar com algum robô enorme
se transformando num carro, não pense duas vezes, abra a porta e entre.

12 comentários:

Anônimo disse...

Vc não eh a unica pessoa q pensa nessa plateia ;)
Otimo texto !!

Unknown disse...

Rs.. Adorei o final surpreendente, ops, nem tanto, da loura de lingerie.. Huahuahua.. Agora, se fosse um morenaço de cueca da Calvin Klein que estivesse do outro lado da porta, rs.. Eu também abria, afinal, o povo do cinema adoooooora cenas 'interessantes'. (Gostei, viu? Tá fraquinho não! Isso se chama, sair da zona de conforto. Difícil, mas necessário.)

Joana disse...

A parte do filminho eu vou passar (sem desmerecer sua platéia astral),mas das histórias para contar...
Nossa, tava pensando nisso essa semana!!Muito bom texto, acho que vou até repensar a proposta de pular de paraquedas..hehe

Mariana disse...

O problema é imaginar de que gênero é o filme. Estrutura parecida mas tema original apesar de comum a todos, né? Ficou bom. De novo.

Marilia Perrelli disse...

Como sempre você é surpreendentemente imprevisível...
Adooooro.

Anita dos Anjos disse...

texto fabuloso, parabéns!

Ju disse...

"Entrar no carro" se chama VIVER!
Faço isso todos os dias. Sem medo do desconhecido, vou em frente! Adorei esse texto, cabeça de caixos. Beijosss

Luanne de Cássia disse...

é, viver a vida com intensidade é o que há
Seu post me fez refletir e rir tambem
fabuloso!

Unknown disse...

super me identifiquei com o texto, muhle! :) adoreii! parabéns!

Duda disse...

Eu apoio. E sento na primeira fila, pra assistir.

Um beijo.

Gilvanycynthia disse...

Tem uma sala com meu nome também... eu tenho certeza! tem que fazer valer a bilheteria!
muito bom o texto!!
:)

Anônimo disse...

Sempre muito, muito bom mesmo!
Parabéns!