quinta-feira, 4 de março de 2010

EU AVISEI PARA VOCÊ NÃO ABRIR ESSA GAVETA

por Maria Rita Angeiras


Eu tinha aquela certeza que a gente coloca dentro do bolso, rezando para que ele esteja devidamente furado, no tamanho exato para que algo escape enquanto as pernas vão embora correndo. Aquela certeza que a gente coloca na última prateleira do armário, lá em cima, empurrando para trás todas as outras coisas que você só usa uma vez por ano, e olhe lá. Aquela certeza que a gente enfia debaixo dos cinco travesseiros da cama, impossibilitando qualquer busca quando a cabeça desiste do dia e se deita. Aquela certeza que a gente enfia no capacho da porta, impedindo que ela sequer entre em casa junto com você, pelo menos naquela noite, por favor. Aquela certeza que a gente empurra na despensa com as costas, até ela encontrar um cantinho milimétrico entre o chocolate amargo e o chá verde. Aquela certeza que a gente afoga no banho, debaixo da água fria e corrente, pra ela entrar pelo ralo e ir embora de vez, quem sabe. Aquela certeza que a gente joga na bolsa no meio de um monte de treco e só acha três meses depois, quando ela começa a ficar maior que você. Aquela certeza que a gente enfia debaixo do sofá, seguido de um arrepio nos ombros, um movimento que varia entre vergonha, estranheza e repulsa, porque faz você parecer errada, confusa e perdida. Aquela certeza que não dorme, não come, não se distrai, não muda de casa e não sai de você. Aquela certeza que a gente tem quando uma coisa parece perfeita, mas, no final das contas, não cabe no seu dia, não encontra um lugar no seu ombro, não faz cócegas na sua alma, não arruma uma vaga na segunda, não torce pela sexta-feira, não comprime a sua cabeça e nem fica no seu telefone. Então sabe toda essa minha certeza de que te falei? Um dia desses, por descuido seu, ela escapou da gaveta.

5 comentários:

*** Cris *** disse...

Fiquei meio perdida lendo seu texto, mas sabe que o reencontro com coisas guardadas sempre mexem conosco.
Bjs!

Léo Santos disse...

Não há outro jeito, um dia a geveta se abre!

Um abraço!

Anônimo disse...

Certeza, quem as tem?
Campo escorregadio, não?

Parabéns.

Anônimo disse...

voce me emociona a cada paragrafo,que jeito bonito de me deixar triste!obrigada por essa leitura.

thaisa.

Mari Bahia disse...

A minha certeza também foi embora...mas tô esperando uma nova, um dia ela vai aparecer. ;)

Lindo texto!