por Rafael Moreno
Um dia proibiram o cigarro de vez.
Digo, não de uma vez:
Começaram tentando mostrar que fazia mal.
Que dava câncer.
Pulmão, garganta e sei lá mais onde.
Ninguém acreditou.
Ou quase ninguém: um a cada cem fumantes desistiu do cigarro.
Mais ou menos isso.
Aí disseram que fazia mal ao feto.
Que dava mau hálito.
E, novamente, pouca gente levou a serio.
Aí disseram que causava impotência.
Colocaram nas embalagens e tudo.
Cigarros impotentes, homens de cabeça baixa.
O cidadão ia comprar o cigarro e pedia:
Me vê um do câncer aí, Legal. Ou uma enfisema.
Alguns pararam do fumar na mesma hora.
Outros adoraram ter a desculpa.
É culpa do cigarro.
É culpa do cigarro.
Até que veio o baque maior.
Proibiram o cigarro em lugares fechados:
Todo mundo pra varanda.
Aí proibiram o cigarro na varanda:
Todo mundo pra rua.
Aí proibiram o cigarro na rua:
Todo mundo, pra onde mesmo? Como assim?
Então você podia fumar em lugar fechado outra vez?
Não, senhor.
Só em casa, escondido da polícia.
E dos filhos.
Sobretudo dos filhos, educados pela sociedade a discriminar o fumante, desde cedo.
Um amigo, pais de duas meninas, fumava trancado no banheiro, soprando na privada e dando descarga.
Depois colocava desodorante no ar, exatamente como fazia quando começou a fumar, anos e mais anos antes, escondido dos pais.
E teve o problema do tráfico.
Senhores e senhoras subiam a favela para comprar Malboros, Carltons e Frees.
Viciados vendiam celulares, sons de carro, aparelhos de mp3.
Começaram a se endividar.
E o tráfico começou a matar mais fumantes que o câncer.
As blitz se esqueceram do problema do álcool e começaram a fiscalizar os fumantes.
Uma pitada já dava cadeia.
E uma multa enorme.
Fumantes passivos eram presos por engano.
Não dava nem pra dar uma disfarçada, fumando sem tragar.
O Fumômetro pegava tudo.
Ficou cada vez mais arriscado, mais divertido.
Era a nova adrenalina.
Nunca foi tão gostoso fumar.
9 comentários:
fuderoso. os textos do blog do shopping tb. pedrinho é bicha.
simplesmente foda, rafa. sinto exatamente assim e acho feio o grau de discriminação com o fumante.
Rs.. Realmente! Fumaste meeeeeeermo, peeeeeeeeeeeeense num texto doidão! Rs.. (E faço minhas as palavras da Ely, no do shopping tem textos igualmente muito bons!)
sou fã dos textos dos três. esse texto, em especial, eu achei ainda mais fantástico, mostrei ao meu pai e ele me disse que se sentia exatamente assim. que não parou de fumar porque quis, mas por que foi obrigado.
o fumante é o novo maconheiro.
muito obm, rafa!
abs,
mateus barbosa
POUTS Como eu gostei desse texto! Demorei demais pra descobrir esse blog, mas agora não largo nem a pau ;D
A cena que me vem agora é exatamente aquela da gente aí em Sampa, no Mercearia, tendo a constatação de que 75% do bar eram de novos marginais fugindo da polícia para dar as suas baforadas! Excelente texto, hermano!
Nossa!
Adorei.
Muito bom!!!! e lá vai aquela velha frase: "tudo que é proibido é mais gostoso".. rsrs
Não sou fumante (ativa) mas acho tensa demais essa pressão pros fumantes.
Abraço.
gilvanycynthia
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