por Rafael Moreno
Nos anos 80, ainda existiam legítimos blind dates, que é o mesmo que encontro às cegas, mas fica bem mais charmoso em inglês. Você estava lá, solteiro, com aquela cara de Me apresenta a alguma amiga, pode ser qualquer uma, não me importa se ela fuma ou se tem gases, só preciso conhecer alguém, e o seu amigo do escritório, preocupado, dizia, fingindo que não tinha lido a sua cara:
— Tenho uma amiga que, ó, supimpa.
— No duro?
— Pode confiar. Quer que eu te apresente?
— Abalou.
Aí Fulano ligava para a amiga que estava morrendo de medo de ser madrinha de cinco meninos e que já havia esquecido de conhecer um médico ou advogado, falando um pouco sobre você:
— Olha, tenho um amigo pra te apresentar.
— Jura?
— Palavra. Posso dar teu telefone pra ele?
— Pode sim. Ah, se pode.
Daí você marcava com a garota dizendo “Vou estar de colete azul e All Star vermelho”, e ela chegava, e vocês passavam horas buscando coisas em comum: signos, marca de chocolate, escola onde estudaram, filme do Indiana Jones preferido, melhor música da Legião Urbana, essas coisas que fazem as pessoas se convencerem de que são muito parecidas ou muito diferentes, mas que, na hora do desespero, é bom ser muito parecido e também é maravilhoso ser muito diferente. Tudo vale. Depois trocavam telefones, que nem começavam com o número três, e marcavam um outro dia para comer uma banana split ou passear de patins.
Hoje, não. Hoje, não. Se Fulano diz que vai apresentar uma menina a você, no mesmo segundo você entra no Google, Facebook, Twitter e Orkut. Vê todas as fotos possíveis, buscando alguma em que ela esteja de biquíni. Sabe os lugares para onde ela viajou, os livros preferidos, as comidas. Se quiser, pode até baixar o currículo profissional dela.
Aí você vai pro encontro sem nem precisar dizer a roupa que está usando.
— E aí, Edvânia?
— Tudo beleza, Vicentino?
— Tudo massa.
— E aí, gostou do show ontem?
— Ah, foi bárbaro, mas você nem foi, né?
— Não pude ir porque…
— Teve aniversário do sobrinho, eu vi. Tá grande o Rodolfinho, né? Um amor.
— Ele é o máximo. Tem quase a idade de Etelvina, sua prima, filha de Aracy.
— É verdade.
E amanhã? E amanhã? O casal se conhece através de um melhor amigo em comum na Fifth Life, mas querem quebrar o protocolo e se encontrar. Ao vivo.
— Tudo bom? Que pergunta! É claro que sim, você acabou de ser promovida. Está ganhando doze salários-mínimos, conseguiu resolver o problema da acne, e faltam seis páginas pra terminar a monografia, que está difícil, mas você ainda tem vinte dias e conseguiu folga no emprego para a quinta-feira que vem.
Diga adeus à insegurança de faltar assunto, de não saber que comida pedir, de esconder que está ficando careca, de sorrir com a mão na boca para não mostrar um dente quebrado, de se amostrar bem muito falando sobre as suas qualidades, de contar as histórias engraçadas que viveu e foi herói. O blind date está com os seus dias contados. Salvo, é claro, numa única e absoluta condição: ser cego.
5 comentários:
Enquanto o mouse não acessar a nossa alma, ainda há muita coisa a ser descoberta... e se há! A vida é um eterno encontro às cegas. Mas adorei o espírito do texto - e até me reconheci em uma ou outra investigação virtual. Muito bom!
Por isso que é legal mentir na internet... assim ninguém fica tem conhecendo de verdade. muhahaha heim?!
marca todas as opções de privacidade no face e só libera friend request depois que conhecer a pessoa. nem faz tanto tempo, o máximo de conversação online que tínhamos era o mIRC. e lá, seu ninguém tinha foto, porque ninguém tinha saco pra revelar filme e porque ninguém sequer tinha um scanner. dava pra mentir fácil, fácil. saudade do tête-à-tête. desafios alimentavam relações.
O "3" no início do número do telefone foi ótimo!!!! rsrsrs
ruim foi se adaptar a ele... hoje, quase mais ninguém mais se lembra ou sabe que esse "3" não existia.
gilvanycynthia
Haha..
Encontro às avessas num mundo sem segredos.
E viva a inclusão digital.
Abraços
Neo
Todos os Sentidosd
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