terça-feira, 5 de outubro de 2010

AQUELE NOSSO PÍER

por Maria Rita Angeiras


Não era um píer. Aliás, era sim. Apesar do tamanho e da simplicidade, cumpria sua função determinada pela regras da engenharia, sendo ‘uma passarela sobre a água, suportadas por estacas ou pilares, permitindo que marés e correntes flutuem quase desimpedidas’. Mas, para mim, não era apenas um píer. Era o lugar onde eu tinha escolhido passar um tempo, depois de abrir a caixa de força da minha cabeça e desligar alguns botões que há tempos não viam descanso. E nós dois estávamos ali, sentados no chão daquele píer gelado. Você tentando adivinhar as estrelas que se escondiam embaixo da noite nublada e eu simplesmente sorrindo do seu jeitinho adorável de apontar para o céu e fingir ser profundo conhecedor de constelações, só para me agradar, garantindo que cumpriria com louvor todos os detalhes românticos do meu antigo imaginário adolescente. Você e os seus olhos, que o famoso poeta descreveria como vertiginosamente azuis e que eu não descreveria com palavra nenhuma, porque elas são tão tímidas e limitadas. E também me lembro do jardim que você me arrastou para conhecer, enquanto tropeçávamos pelas calçadas. O jardim que tinha uma pequena mesa de madeira, com várias cadeiras em volta, e uma placa onde se lia algo que você traduziu como ‘particular’, apesar do portão aberto que permitia a entrada de qualquer um naquele lugar mágico, onde folhas de outono faziam as vezes de tapete, em uma mistura harmônica de laranja, amarelo e vermelho. Um lugar com uma beleza diferente de tudo que eu estava acostumada a ver e com uma perfeição que nem a noite conseguiu disfarçar, endossando as cores do outono na cor das casas que se dispunham em volta, como em um abraço apertado. E, antecipando a minha partida, eu já me despedia de tudo aquilo, sem você saber. Então deixei o tempo congelar lentamente, junto com os poucos graus que ilustravam aquele cenário. Depois de alguns segundos tentando me desconcentrar dos seus olhos azuis, o tempo finalmente parou. E lá estávamos nós, sentados naquela mesa de madeira. Eu, você e a minha liberdade que você colocou no seu bolso.

5 comentários:

Bruno Costa disse...

"Eu, você e a minha liberdade que você colocou no seu bolso"

Parece que todos gostam de lamentar essa prisão. Os que desfrutam da Solitária Liberdade acabam feito eu, se sentindo velhos, chatos e lamentando essa liberdade com posts em blogs com nomes sugestivos.

Anônimo disse...

Então telefone mudou de nome e virou liberdade?? Mocinha conselho de querida pra querida, pára de ver Danwson's Creek :PPP

Anônimo disse...

O texto faz a gente imaginar cenários mágicos... dando suporte a momentos mágicos.

gilvanycynthia

Anônimo disse...

Ao invés de picolé de folhas, vi uma explosão de outono indiscritível.
Também vi píers e imagino que num deles você viveu esse momento especial.

Sensível e belo como sempre.

Saudades
Lori

gabriel disse...

em outras palavras, vc não perdoou o sueco, né? ;)