sexta-feira, 12 de novembro de 2010

O MEU TRAVESSEIRO PELA SUA JANELA

por Rafael Moreno


Eu tenho saudades de muita coisa da minha infância, mas da Belina 87, não. E olhe que vivi a melhor viagem da minha vida dentro dela, espremido entre Artur, Mariana e Tia Marcinha, porque sim, naquele tempo se podia colocar quantas pessoas entrassem no banco de trás. E, se não coubessem mais, dava pra ir na mala também, naquele tempo, mas a nossa já estava entupida de mochilas, refrigerantes e sanduíches (pausa: a melhor lembrança dessas viagens eram os sanduíches que minha mãe preparava, de queijo e presunto, só queijo, só presunto, com manteiga, com requeijão, de atum.. eram mais disputados que Pipo’s). Saímos do Recife com destino a Belo Horizonte, parando no caminho por inúmeras cidades, como Barra de São Miguel, Penedo, Aracaju, Cachoeiras, Porto Seguro, Vitória, Ouro Preto, Tiradentes e Mariana, só para citar as que me lembro.

Foi nessa Belina del Rey cor de areia que, além de conhecer o Brasil, eu conheci o tédio.

As horas dentro do carro eram intermináveis. As paisagens eram as mesmas durante muito tempo. Eu nem sabia ler direito para ver a distância em quilômetros. Não tinha ar-condicionado. Nada de rádio. A humanidade estava feliz com VHS, nem cogitava criar o DVD, ainda mais para automóveis.

É difícil acreditar, mas até mesmo três crianças com a mesma idade se cansam umas das outras e o repertório de brincadeiras dos meus pais e de tia Marcinha não aguentava a pressão Arraial d’Ajuda–Vitória do Espírito Santo. Brincar de “quantas bicicletas vocês conseguem contar” é divertido durante vinte minutos, no máximo por vinte e dois.

E a Belina parava de vez em quando no meio da estrada e painho precisava colocar água no radiador.

E a famosa pergunta Falta Muito acontecia o tempo inteiro.

E fazia calor, muito calor. Quem ficava na janela onde estava o sol segurava o choro ou oferecia algo de valor em troca, como o travesseiro.

Você tem filhos? Não importa. Junte três crianças no banco de trás de um carro sem música. Abra os vidros e desligue o ar-condicionado. Agora diga: faltam oito horas. Depois experimente oferecer uns sanduíches que não sejam da McDonald’s.

Daí ontem, ou antes de ontem, eu estava vendo televisão e passou o comercial de um carro que vem com PlayStation. Era apenas um dos mil atributos do potente 4×4, mas, nessa parte, apareciam dois meninos com o joystick na mão jogando e olhando para uma televisão que ficava na altura do para-sol. Colocassem um Pinball na Belina 87 e eu seria feliz, feliz demais.

4 comentários:

Neo disse...

Haha..
Acho que todo mundo tem uma história dessas pra contar.
Mas essa me levou lá pro passado (nem tão passado assim, mas passado..rs).
Primeira vez aqui. Passando pra conhecer e já ficando.
Tá no Favoritos pra voltar depois.
Grande abraço

Neo
Todos os Sentidos.

Anônimo disse...

fraungaxava

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Anônimo disse...

Lembrei demaais das viagens Caruaru Tamandaré, em que além dos meus 3 irmãos e eu, cabiam ainda primas, mainha, voinha e voinho.. e pra completar um papagaio (não me pregunte como cabia, que até hoje não entendo a lógica) falando a viagem inteira e de vez em quando se estressava e voava pra cima de alguém...
ah, o carro era um monza!! rsrsr

mas eu ia a mais feliz, pode crer!

:D

gilvanycynthia

Edízia Lessa disse...

eita, saudade.. uma vez papai perdeu o caminho indo pro interior do estado (rn quase vizinho, rs..)numa estrada cheia de cavaletes de petróleo, rs.. era noite.. caraca, foi quase filme do Jack (o estripador, rs..)e também tinha um sanduíche da mamãe salvador, eita tempo bom..