segunda-feira, 22 de novembro de 2010

SÉPIA

por André Muhle



Hoje eu acordei com saudade. E, como de costume, comecei a ver minhas fotos. Das mais recentes para as mais antigas. Fotos da faculdade, das namoradas, dos churrascos, do colégio, dos aniversários. Vi fotos de todos os tipos, mas quando cheguei nessa aí de cima, parei quase que imediamente. Deve fazer pelo menos umas 2 horas que mal consigo tirar os olhos dela.

A foto é linda, não só porque eu era um belezura, mas pela composição, pela paisagem, pela harmonia. O tom marrom avermelhado da imagem, faz com que o mar se confunda com a própria areia e ai fica difícil dizer onde termina um e onde começa o outro. Mas pela minha cara isso não parecia ser lá uma grande preocupação.
É claro que não consigo me lembrar de nada desse dia, mas tenho plena convicção de que eu era infinitamente feliz. Eu não tinha um computador, não tinha 50 e-mails por dia, não tinha ex-namoradas, não tinha lembranças saudosas. Enfim, eu não tinha nada que me deixasse triste. No máximo uma fralda apertada, uma fome inexplicável ou um sono gigante.

Eu não sei se eu estava tentando me levantar ou se tinha acabado de me abaixar ou, talvez ainda, se eu gostava ficar assim por horas e horas. Sei menos ainda se eu estava olhando pra minha mãe, pro meu pai, pro sol ou pra alguém que passou olhando pra mim como quem diz "olha que fofinho". Tudo o que sei é que dá pra ver a sombra de uma pessoa no cantinho inferior esquerdo da foto. Provavelmente eu também não estava com vergonha desse short ridículo que devia juntar um monte de areia e me deixar com uma assadura terrível.

Também não sei que fim levou aquela mãe e aquela filha, lá no fundo da foto.
Mas com certeza ela não estava feliz por ter que caminhar em pé de mão dada no sol quente. Eu sim, tinha liberdade. Eu sim, podia ir pra onde quisesse. Provalmente também, essa mesma menina hoje deve ser uma promotora de justiça que, depois de 3 divórcios, está criando os dois filhos sozinhos no sexto andar de um prédio qualquer. A mãe, coitada, se ainda for viva, deve ter como única diversão as aulas de hidroginástica para curar a artrite e a osteoporose.

Seja como for, essa foto me fez sentir uma saudade terrível, uma nostalgia até difícil de explicar. Mais que isso, me fez sentir uma vontade enorme de estar, hoje, exatamente como naquele dia, naquela praia, com aqueles pensamentos. Mas infelizmente, nem tudo é tão possível assim. Me contento então em saber que um dia, naquela praia eu fui mais feliz do que nunca e que aquela sombrinha ali, no canto inferior esquerdo da foto, talvez seja da mesma pessoa que, agora, deve estar lendo esse texto toda cheia de orgulho.

7 comentários:

Edízia Lessa disse...

e chorando, aos rios! rs.. eta cabra que só te dá orgulho né dona cristina? (pense numa pessoa bem feita, rs.. aliás, pensem em pessoinhas bem feitas, né Dani?!) belíssimo texto e novamente digo, belíssima foto (seja lá quem tenha feito este registro), linda como a grande maioria das fotografias: feitas pra trazer novamente a emoção de um belo dia, que vc pode não se lembrar, mas também tenho certeza que a pessoa cheia de orgulho e agora rodeada de lenços de papel lembrará.. e essa foto é visionária, tipo: tchau mamãe, vou pro mundo, vou desbravar um mar cheio de possibilidades! (parabéns pelas particularidades nas pontas dos dedos!)

Edízia Lessa disse...

Edízia acertou em cheio, tô aqui morrendo de chorar rodeada de lenços de papel e toda orgulhosa. " Recordar um passado feliz é ser feliz outra vez". Adoro essa foto e AMO você. Cristina G. Muhle

camilinha.vix disse...

Lindo, André!

Anônimo disse...

Mais um texto lindo. Mais um parabéns por tantas palavras que me comovem e me tiram, mesmo que por pouquinho tempo, do meu mundo e me fazem embarcar no seu mundo encantador.

Patrícia Duarte
[patriciaduarte85@yahoo.com.br]

rozanagalvao disse...

Oi querido, adorei esse texto, você é uma dessas pessoas que fazem parte de um mundo lindo que eu acredito; fico muito feliz em perceber esse ser humano sensível que tem a capacidade de emocionar a todos que tem a sorte de desfrutar de teu talento. Me dá alegria tê-lo como meu sobrinho, mesmo que torto, mas meu compadre legítimo. Beijo

Anônimo disse...

Tu demora para escrever aqui no Blog, agora também quando escreve deixa todo mundo chorando. Parabéns. Massa como sempre o texto.
Rod

Alice disse...

Senhor André... Eu tenho lido o blog de vocês nos últimos tempos... ...
Eu também queria estar nessa praia agora... era tudo que eu queria!

Seja feliz com suas palavras perfeitas!!!

um beijo