por Rafael Moreno
- Quero igual ao último de Johnny Depp.
Foi o que Diogo respondeu, quando o cabelereiro perguntou como queria o corte. Em seguida trouxe o notebook.
- Assim?
- Isso. Quero ficar igual.
Andou lendo uma Quem enquanto o rapaz passava a tesoura.
- Terminei.
Olhou no espelho e tomou um susto: estava igual a Johnny Depp. Não só o cabelo, mas os olhos, o nariz, a boca, as rugas, a barbicha. Ficou de pé: estava mais baixo também: como Johnny Depp!
Logo na saída do salão foi parado pelo manobrista:
- Ei, ei: você é aquele ator de Piratas do Caribe?
Foi responder que Não e acabou dizendo No. E com a mesma voz de Johnny Dep!
O manobrista pediu autográfo. But, my friend, I'm not Johnny Dep! My name is Diogo!
- Diogo, não, dedica aí a Felipe. É meu filho. My son. É "son" que se diz, né?
Saiu correndo, pegou um táxi. O motorista fez o percurso discorrendo sobre o aumento do preço do etanol, nem o gás está barato. Entrar no edifício foi uma luta. Seu Joaquim não queria liberar. E não entendia patavinas do que Diogo dizia.
- It's my place! I live here!
Mostrava as chaves, dizia o número da garagem, há quantos anos vivia ali. Eight years! Eight Years!
- Olha, ou o senhor se acalma ou vou ter que chamar a polícia.
Estava a ponto de ligar para a delegacia quando a mãe chegou caminhando na rua.
- Diogo?
- Mom!
- Você está tão magrinho, meu filho, que aconteceu?
- I was cutting my hair and now I'm looking like Johnny Depp!
- Fala comigo em português, meu filho, você sabe que nunca fui boa com outras línguas. Só em francês, mas mesmo assim...
- Mom! Can't you understand? I'm in a strange body!
- Você não quer subir? Vamos subir. O que faz aqui fora? Esqueceu as chaves? Você está tão bonito. Parece artista!
Subiram e ele correu para o banheiro. Tomou um banho demorado, esfregando sabão e xampu com força, para ver se voltava a ser o verdadeiro Diogo. Saiu enrolado na toalha e foi surpreendido por amigas da mãe:
- Meu Deus.
- É ele mesmo.
- Vou ligar para minha filha.
E a mãe dizia que estava parecido com o falecido pai, mais novo. Uma senhora tentou puxar sua toalha. Outra não parava de tirar fotos com o celular.
Adolescente eufóricas, esposas atiradas e maridos que nem sentiam ciúmes invadiram a casa. Queriam uma picture com o astro. Sua assinatura. Comentavam do filme do barbeiro do mal, de Edward Mãos de Tesoura, cantavam a música de Willie Wonka. A imprensa não demorou montar guarda na entrada do apartamento. Os jornais preparavam suas matérias: “Johnny Depp divuga novo longa no Brasil”; “Astro da Fantástica Fábrica de Chocolates estréia comercial da Garoto”; “Quem será a brasileira que trouxe o Johnny até aqui?”.
Ele não sabia o que fazer. Ainda de toalha, assanhando os cabelos, insistia:
- I'm Diogo! My name is Diogo! I'm not Johnny Depp!
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