por Rafael Moreno
Você chegará. Desligue o telefone e caminhe sem medo. Não será assaltado. Ninguém sabe que traz um computador na mochila, não será assaltado. Esse caminho não é ruim. É sujo. Mas você chegará. Converse com o homem que está no portão, pergunte se é perto. Dê o destino. Escute-o dizendo que não é distante - é distante, mas dá pra caminhar. Escute-o dizendo que é escuro - é escuro, mas dá para ver. Escute-o dizendo que é preciso ir pelo túnel - mas dá pra chegar. (Reparou nos dentes? Repare nos dentes feios que ele têm: dentes de cobre, de chocolate, de giz de cera marrom, não olhe para os dentes, olhe para os olhos, ele está lhe ensinando o caminho). Você decidirá: não caminhará: escolha um táxi. Sim, pegue um táxi porque é longe, é perigoso, você tem um celular e um computador no bolso, na mochila. Na esquina tem táxis. Não, não têm. Tem um, ali tem um: mas esse senhor chegou primeiro. Olhe ao redor: a rua tem pessoas fantasiadas de Reis Magos, de Jesus. O taxista também está fantasiado. Papa. Foi embora. Foi embora. Chame outro táxi, fique na esquina. Olhe ao redor, fique na esquina. Saia rápido, aqui é sujo, é fedorento, perigoso. Tente lembrar por que veio até aqui, não sei, não consigo, saia daqui, chame um táxi, não tem, não passa. À direita um casal se beija. O homem levantou o vestido da mulher, você verá a calcinha minúscula e uma tatuagem, ali mesmo, na bunda. Não olhe. Ele pode perceber. Saia logo. Não tem táxi. Outro casal se beija, escondido no portão onde o velho de dentes podres indicou o caminho. Desvie o olhar. Não deixe que reparem, aja naturalmente, encontre um táxi. Quatro adolescentes querem o mesmo que você. Um deles parece estar doente. Com o rosto ferido. Não. É uma mancha. Não olhe. É uma mancha horrorosa no lábio, embaixo do nariz. Não olhe. Eles estão na frente, antes de você na rua: pegarão o táxi primeiro. São quatro e não têm educação. São adolescentes. Você não conseguirá. Passou um porco verde com cabelo nas costas. Os jesus e reis magos não estão mais por aqui. O homem está comendo os próprios dentes. Ande até a outra rua. Cuidado, você tem um computador na mochila. Encontre um táxi, rápido. Olhe esse homem que caiu no chão. Ele não tem pernas. A calça sobra-lhe do joelho para baixo. A irmã dele o levantou. Ele te olha. Ele sorri. Você também sorrirá. Está sorrindo. Dá um soco no ar. Completamente molhado. Chove e você não sabia. Molhado ele. Você abrirá suas mãos e o cumprimentará. Ele quer te dar um abraço. Você o abraçará. Ele chora. Você escutará a mãe: ele vai morar sozinho, está feliz porque acaba de comprar um apartamento. Você o abraçará. Abrace-o. Você o apertará. Aperte-o. Escute o choro em seu ombro, seu peito, seu abraço. Você sentirá o seu choro. Saberá que essa alegria é maior que a casa própria: chora pelo seu abraço, por um desconhecido na rua que abraça um homem sem pernas, homem que não sabe falar, que passou a vida com abraços de mães, abraços de irmãs, abraços de tias sem abraços de amigos. Você dirá que desse jeito a gente vai cair e a mãe o ensinará a segurá-lo. Chama o filho pelo nome. Diz para ele: que abraço, Rafa, que legal. Eu me chamo Rafa também, você dirá. Também sou Rafa, você repetirá, impressionado com a coincidência de nomes. Ele enxuga as lágrimas em sua camisa e o beija no ombro. Você baterá em suas costas. Parabéns, Rafa. Boa. Parabéns. Ele passa para os braços da irmã. Agarrado em seus ombros, com o trapo de pernas arrastando pelo chão molhado. Caminham balançando os braços, despedindo-se. Então você saberá: está em dos lugares mais bonitos dessa cidade de loucos. Então perceberá: não chove mais. Esse táxi está livre, mas você caminhará.
2 comentários:
Hááá, que lindo! E verdadeiro! Nosso olhar é construído a partir de nossas relações. E é esse mesmo olhar quem construirá o mundo ao nosso redor. Quer mudar o mundo? Mude-se e o enxergará diferente...e assim ele se fará diferente.
Como as pessoas e nós mesmos somos poderosos, não é? :) Seres de relação...
Grande abraço.
Lindíssimo.
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