por Rafael Moreno
É depois do Dia das Crianças que a cidade começa a se enfeitar de Natal. No começo, discretas, as lojas penduram luzes em suas janelas e colocam papais Noel de miniatura em suas portas, paredes, chaminés inexistentes. Depois, logo depois, e em bem pouco tempo, as primeiras prateleiras dos supermercados estão invadidas por bolas coloridas, bichos de pelúcia com gorro vermelho, bonecos de neve com nariz de cenoura e cachecol, anjinhos, presépios e estrelas para colocar no topo da árvore de Natal. Foi em um supermercado que Thiago resolveu fazer uma árvore de Natal.
Mas não uma simples, uma qualquer: resolveu fazer a maior árvore de Natal do mundo. Que colocasse a de Nova Iorque no chinelo, na meia pendurada ao lado da lareira. Maior que a do Ibirapuera. Duas vezes a de Itu.
Então ele passou nas lojas Americanas e comprou todas as árvores que encontrou por lá. Fez o mesmo no Pão de Açúcar, no Carrefour e em lojinhas da Liberdade. Crédito ou débito?
- Só passo no débito.
Em casa, Tati ficou surpresa. Achou que ele havia mudado. Que estava pronto para ter um filho, ser um bom pai. Elvis já é meu filho, afirmou, seco, enquanto passava a mão no pelo de Elvis, aquele cachorro que roncava e corria louco pela casa. Ainda assim, Tati se emocionava. Chegou até a ligar para a sogra, dizendo que “Thi” havia mudado. E chorou, quando ele pediu a ela para comprar champanhe. Mas mudou de ideia:
- Champanhe, não. Jack Daniels.
E, olhando para Elvis, completou:
- Jack Daniels não se bebe com gelo.
Durante dias ele a montou. Mesmo cansado. Mesmo exausto depois de trabalhar horas para a JBS. No 24 de dezembro, sua árvore era vista de longe, tal qual o relógio do Itaú. Orgulhoso, de banho tomado, bebendo o seu uísque, puro, Thiago esperou as doze baladas da meia noite.
Meia noite.
Chegou Papai Noel. Enfiado em sua roupa vermelha, suas botas pretas, sua barba branca, seus óculos fininhos. Papai Noel. Com sua risada, com um saco de presentes: embrulhos para ele, para Tati, para Elvis. Por favor, Papai Noel, vamos ao topo da minha árvore, pediu Thiago.
Subiram, juntos, aquela escada imensa. Sentiram, juntos, lá de cima, o vento bater em seus rostos. Viram, juntos, o mundo inteiro. Papai Noel chegou a dizer que sempre se impressionava com o Recife. As luzes refletidas sobre o rio Capibaribe. Mas mesmo com presentes, mesmo com elogios à sua cidade, Thiago seguiu o plano e falou entre os dentes:
- Eu odeio Papai Noel.
Num golpe de Muay Tay, jogou o bom velhinho do alto daquela árvore que quase encostava o céu.
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