por Maria Rita Angeiras
Tá, preciso dividir isso. Isso que me sufoca de manhã, de tarde e de noite. Que ocupa meus segundos, meus minutos, minhas horas, meus dias, meus meses e a minha vida. Que sai remexendo tudo aqui dentro como uma criança que desfaz com as duas mãos um castelinho de areia pra começar do zero. Felicidade. Isso mesmo. Esse sentimento que a gente acha estranho ou atípico quando aparece. Isso porque a gente lê desde pequeno nos contos de fadas que felicidade é algo que só se consegue ter no final da história. E aí a gente acaba tendo uma vida de quase-felicidade ou de felicidade-potencial, esperando a felicidade completa chegar depois da gente de ter amadurecido e apanhado bastante.
E eu sou contra. Sou contra achar que é perigoso rir muito num dia porque, como dizem as pessoas, você pode chorar demais no outro. Sou contra ter medo de ser feliz pelo medo de um dia simplesmente deixar de ser. Sou contra pensar que a gente deve sofrer pra aprender a valorizar mais os momentos felizes. Sou contra ser feliz só nos dias de sol, só quando se está apaixonado, só quando se tem dinheiro ou só quando não se tem problemas. Sou contra achar criar expectativas positivas numa coisa faz essa coisa não acontecer. Sou contra acreditar que é melhor ter uma felicidade meio low-profile porque combina melhor com a cara blasé e o estúpido casaquinho off-white. Sou contra aquele comentário “como você está feliz hoje”, que geralmente vem depois de um bom dia ou de um boa tarde. Sou contra quem diz que é bem mais fácil ser triste do que feliz. E você pode ficar aí pensando que é só pra ser do contra mesmo. Quer saber? Não me importo.
Decidi que não vou deixar nenhum babaca neo-escritor de livro de auto-ajuda me convencer de que só os idiotas são felizes ou de que eu sou uma versão moderninha da Poliana.
Sendo assim, não vou abrir mão dessa felicidade que preenche todos os meus espaços e que fica me acompanhando pelas ruas quando eu saio de casa.
E quando Clarice Lispector diz, em um de seus livros, que “a felicidade dói” eu concordo plenamente. Felicidade dói porque não cabe no corpo.
Um comentário:
Fiquei mais feliz depois que li essa! Mais feliz por você e ai mais feliz por mim!
E que essa "dor" de felicidade seja constante!
Beijo bem grande e CHEIO de saudade!
Dida.
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