Gordon fez um sinal com a mão e disse: ‘Faça o serviço, os três sabem demais'. André Muhle, Maria Rita Angeiras e Rafael Moreno. Três amigos. Cada um em um canto do mundo. Aqui, todos reunidos. Crônicas novas toda semana.
sexta-feira, 23 de maio de 2008
Bastou acordar para lembrar-se dele, de nome de anjo e cheiro de azul. Lembrou cada detalhe da noite anterior enquanto cheirava a roupa que trazia o cheiro de azul do menino de nome de anjo que a beijara a noite inteira e a deixara com gosto de saudade como um fogo que ardia no peito e a fazia respirar mais forte a cada lembrança. E lá estava ela, em cada cabeçada de sono que ele dava tentando fingir que estava desperto, tentando fingir que trabalhava, ela estava ali, em cada frase que ele escrevia e quase sai no meio de uns relatórios que não tinham nada que ver com saudade e então lutava para manter os olhos abertos e a luta andava empate por isso talvez ele não sabia se era sonho ou se ela realmente estava ao seu lado escrevendo aqueles relatórios todos ou se havia entrado no computador e virado papel de parede: Marina, grudada em sua boca com gosto de beijo e em sua bochecha, seu queixo, pescoço, desenhou alguns versos para entregá-la à noite, era preciso que se vissem à noite, então escreveu seu rosto com uma letra azul e com poesias formando os cabelos, as maçãs, o nariz pequeno e o sorriso tímido, escondido sob um corpo de menina bonita, feito à mão por duas mãos caprichosas que capricharam nas bochechas, esticaram os olhinhos e colocaram pouca cor na pele, demorando bastante em cada detalhe para que não saísse com nada que não impressionasse qualquer olhar: era linda, sim, linda, e não apenas para ele, linda até para as mulheres mais invejosas, que a olhavam de lado, linda para todas as raças e para todos os conceitos de beleza - na verdade, sua beleza não admitia críticas, talvez seu humor, mas não sua beleza, era unânime, total, absoluta. E como não parava de pensar nele, almoçou um prato que cheirava ao Mediterrâneo, bebeu um suco com gosto de céu e escutou uma música que lembrava piscina e por fim decidiu ligar. E logo tocou o telefone ele já sabia quem era e por esse motivo seu coração pulou com força e forçou a garganta, querendo fugir pela boca para cair nas mãos da menina que não saíra nem por um segundo do seu dia, que tinha se mudado com um caminhão de mudança para a sua cabeça e ali se instalara sem sinais de querer trocar de endereço. Ficaram de se ver às seis e ele chegou quinze para as seis e ela já estava pronta desde às cinco, depois disso acabou-se essa história de olhar para o relógio, mesmo porque ele não existia mais, zero ponteiros. Então repetiram a conversa da noite anterior: nenhuma. Então se olharam durante longas horas, um entrando no outro pelos olhos, um conhecendo o outro pelo silêncio, dando as mãos enquanto se abraçavam e sentindo que as bochechas iam rasgar se continuassem rindo tanto.
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2 comentários:
Nossa...se foi você ou não que viveu isso, ou que vive, só posso dizer que tenho inveja. :)
Apesar de quase sempre eu ter as bochechas quase rasgando de tanto sorrir, com certeza não as tenho assim por causa de um beijo, infelizmente! Texto lindo Rafael. Muito lindo.
arrepiou o coração, morinha...
seu lindo!
beijoca.
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