por Rafael Moreno
E mesmo escondendo o riso com as duas mãos e uma boca que apertava os lábios, ela mostrava sorriso pelos olhos quase escondidos sob a franja preta de seus cabelos lisos e deixava claro: estava sorrindo e, sorrindo, olhou para a mesa e falou baixinho algo que ele não ouviu, mas quando ouviu sorriu também e sorriu com o corpo inteiro, olhos, braços, ombros, dentes, sorriu feliz e por muito mais tempo do que sua boca demonstrou. Com os olhos fechados pelo riso, ela fugindo do rosto dele, ele fugindo do rosto dela, sem saber onde pousar os olhos, sem saber mais o que falar, decidiram juntos, sem saber, e calaram o silêncio com um beijo. Beijo sem pressa que, sem pressa nenhuma, esperou duas, dez ou doze músicas para terminar em olhares desacostumados com a luz, com o outro, em lábios que não conseguiam falar, desacostumados com a voz, que buscaram então os copos de cerveja que suavam na mesa e esquentavam sem pressa no bar de cinco ou cinqüenta pessoas, enquanto a vida ao redor continuava igual para todas as vinte, trinta ou oitenta pessoas que ali estavam, menos para eles que dançavam levitados, parados no ar, uma música qualquer e que sorriam de graça, sem precisar palavras, sem precisar boca, pois sorriam com a alma, com toda a felicidade que duas almas encontram quando encontram poucos segundos de paz. Falaram ao mesmo tempo e se desculparam ao mesmo tempo e sorriram novamente olhando para a mesa, para a parede e para o teto até que olharam nos olhos pela primeira vez naquela noite de terça ou sexta-feira e se beijaram novamente sem carícias, sem encostar qualquer parte do corpo senão as bocas, pois o beijo paralizava qualquer gesto, beijo gostoso de duas línguas, duas almas, que vão se conhecendo, descobrindo o que a outra gosta e demorando enquanto descobre e trocando saliva e tocando no céu da boca e na ponta dos lábios e puxando a gengiva e descobrindo tudo com as mãos paradas, paralizadas, sem reação, mãos que não sabem onde pousar e ficam paradas em qualquer parte, paralizadas, sem reação, enquanto o mundo gira, perde o barulho, enquanto os pensamentos ficam vazios, desertos, absolutamente absortos por culpa de um beijo sem pressa, beijo gostoso de duas línguas que não param de se conhecer, duas almas que insistem em se tocar, duas pessoas que começam a descobrir um sentimento e a ficar leve e a dormir em sonos tranqüilos de gente que não precisa se preocupar pois guarda um sorriso para cada situação, gente que traz uma música para cada silêncio. Foi quando ele olhou no relógio e não achou os ponteiros e não se preocupou mais em acordar cedo por culpa do trabalho ao mesmo tempo em que ela também encontrou vazio o relógio do próprio pulso e sorriram então dos dois relógios que não marcavam as horas. Talvez tenham passado dois dias se olhando, rindo e se beijando e dando pequenos goles na cerveja quente enquanto as pessoas no bar mudavam, vinha gente, saía gente, mudavam os garçons e eles não percebiam que o mundo rodava e a vida continuava e pessoas saiam na rua para ir trabalhar, para estudar, para fazer tudo o que pessoas normais costumam fazer numa quarta ou num sábado à tarde, que dia é hoje, perguntou ele já emendando: não responde, e então sorriram mais uma vez e mais uma vez se beijaram até perceberem que o sol já saíra do mar e não havia mais nenhum ser vivo no bar fora eles, nem mesmo os garçons, que deveriam ter deixado a conta de poucas cervejas para lá e ido cada um para sua casa, ninguém, e tiveram então que se despedir, mas o fizeram com tanta demora que ele quase perde a hora do serviço e ela quase leva uma surra dos pais que ligaram a noite inteira e ela não atendeu o celular, nem percebera que tocara. (continua no próximo post)
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