por Rafael Moreno
Tem algumas várias coisas que eu gostaria muito de ter escrito. Como a história das cartas de mais de mil páginas de Florentino Ariza para Fermina Daza em O Amor nos Tempos do Cólera, assim como o fato dele ter esperado cinqüenta e poucos anos para encontrá-la e, na sala de espera, sentir uma tremenda vontade de cagar e ter que sair correndo para casa. As falas de Orfeu para Eurídice, de Vinicius. Para uma Menina Com Uma Flor, do mesmo poetinha. A narrativa de Sandor Marai em As Brasas. As palavras inventadas de Burgess em Laranja Mecânica e as de Guimarães Rosa em Grande Sertão. As cartas de Clarice para o filho mais novo. Algumas músicas de Dona Ivone Lara. E um et cetera sem ser reduzido ao etc, de tanta coisa que é. Dentre elas tem uma que vem me aperreando mais que todas ultimamente. É de Carlos Drummond. Poesia simples, de poucas linhas, que fala exatamente o que vivo sentindo e que não consigo escrever, acredito que por dois motivos. O primeiro é que não tenho a habilidade de Carlos Drummond, a segunda é que já foi escrito. Geralmente sinto isso quando estou pintando ou desenhando. A pintura e o desenho praticamente sempre ficam ruins. Mas o que sinto é impressionante. É isso:
Gastei uma hora pensando em um verso
Que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
Inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
E não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda a minha vida inteira.
Eu não sei se vocês têm esses momentos. Acho que sim. Talvez nem todos percebam quando eles chegam. Talvez a maioria fique achando besteira e mudando o canal pra ver se passa. Ou ligando pra alguém. Mas é nesses momentos que a gente percebe umas coisas pequenas. Uma sombra. A fria temperatura da tinta tocando no dedo. O tamborim que toca num microfone baixinho, só marcando. O movimento que as pernas fazem quando sobem a escada. Um pouco de raiva de Carlos Drummond de Andrade.
5 comentários:
é o fresco?
Meu garoto! Haha
Legal demais, Rafa.
Beijo!
:)
Da próxima vez tenta um grafite, Rafa. Dos bons, como os que a gente usava na época da alfabetização. Eles devem ser mais pacientes e menos teimosos que canetas de pena.
Beijo
Tanto tempo e eu ainda me impressiono com a sua habilidade com as letras...
Rafa
Que lindo esto que escribes, aun no me animo a escribir en portugues, estoy aprendiendo hasta ahora. Si me pasa lo que dices en tu historia, pero por alguna razon no dejo muy a menudo que la tinta llegue al papel, como tu lo haces amigo mio.
Beijos para voce desde Bs. As.
Mary
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