quarta-feira, 25 de junho de 2008

MARLBORO LIGHT

por Maria Rita Angeiras





O corpo doía do cansaço de ter ficado em pé a noite inteira e o espelho do banheiro denunciava a maquiagem preta que tinha tido preguiça de tirar antes de dormir. O cabelo tinha um bagunçado engraçado, quase poético, coisa que alguém definiria como beleza matinal – ou natural, embora denunciasse os lugares fechados e os amigos fumantes da noite anterior. E como não podia deixar de ser, o pijama descombinado também denunciava a pressa em dormir. Caminhou pela casa com um copo de água procurando algum remédio que curasse a dor de cabeça. O café da manhã ia ser dipirona. Não era o tipo de pessoa que tinha uma gaveta organizada. Achava mais interessante ter coisas perdidas por aí em vez de ter a dura certeza de que não tinha o que procurava naquele momento. “Organização acaba com as esperanças”, dizia. A verdade é que não achava certo um espírito livre viver no meio da perfeição. Costumava discutir Clarice antes de dormir no telefone mas se negava a fazer contas porque achava quadrado demais. Achou o remédio e ficou aliviada por não ter que ir até a farmácia naquela hora da manhã, mesmo sendo quase duas horas da tarde. Comeu algo estranho para começar o dia - uma colher de sorvete. Jogou as roupas impregnadas de Malboro Light na máquina de lavar. Saiu da cozinha, ligou o som e ficou ouvindo a cantora de jazz deitada no sofá, ainda de olhos fechados. Riu de algumas besteiras da noite anterior, lembrou dos amigos, das risadas altas e das conversas profundas demais para as madrugadas. Pensou no que ia fazer mais tarde. Percebeu que era cedo demais para pensar nisso. Lembrou-se que não pensava nem sentia falta dele há alguns dias – e não era pelo final de semana cheio. Deu um sorrisinho de canto de boca. Preferia as manhãs de sábado sem as conturbações das noites de sexta.

2 comentários:

Anônimo disse...

Muitas devem se identificar com essa crônica... delícia de ler...
Saudade. Bjo. Bel

Anônimo disse...

RS, RS, RS....
Bom demais!
nem precisa citar autor!!!!!!
Pra quê, né?

Amor,
Lóri