por Maria Rita Angeiras
O corpo doía do cansaço de ter ficado em pé a noite inteira e o espelho do banheiro denunciava a maquiagem preta que tinha tido preguiça de tirar antes de dormir. O cabelo tinha um bagunçado engraçado, quase poético, coisa que alguém definiria como beleza matinal – ou natural, embora denunciasse os lugares fechados e os amigos fumantes da noite anterior. E como não podia deixar de ser, o pijama descombinado também denunciava a pressa em dormir. Caminhou pela casa com um copo de água procurando algum remédio que curasse a dor de cabeça. O café da manhã ia ser dipirona. Não era o tipo de pessoa que tinha uma gaveta organizada. Achava mais interessante ter coisas perdidas por aí em vez de ter a dura certeza de que não tinha o que procurava naquele momento. “Organização acaba com as esperanças”, dizia. A verdade é que não achava certo um espírito livre viver no meio da perfeição. Costumava discutir Clarice antes de dormir no telefone mas se negava a fazer contas porque achava quadrado demais. Achou o remédio e ficou aliviada por não ter que ir até a farmácia naquela hora da manhã, mesmo sendo quase duas horas da tarde. Comeu algo estranho para começar o dia - uma colher de sorvete. Jogou as roupas impregnadas de Malboro Light na máquina de lavar. Saiu da cozinha, ligou o som e ficou ouvindo a cantora de jazz deitada no sofá, ainda de olhos fechados. Riu de algumas besteiras da noite anterior, lembrou dos amigos, das risadas altas e das conversas profundas demais para as madrugadas. Pensou no que ia fazer mais tarde. Percebeu que era cedo demais para pensar nisso. Lembrou-se que não pensava nem sentia falta dele há alguns dias – e não era pelo final de semana cheio. Deu um sorrisinho de canto de boca. Preferia as manhãs de sábado sem as conturbações das noites de sexta.
2 comentários:
Muitas devem se identificar com essa crônica... delícia de ler...
Saudade. Bjo. Bel
RS, RS, RS....
Bom demais!
nem precisa citar autor!!!!!!
Pra quê, né?
Amor,
Lóri
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