por Rafael Moreno
Eu não vim aqui argumentar que você deve ficar parado num sofá assistindo à terceira temporada completa de Lost de uma só vez enquanto seus amigos organizam uma viagem, digamos que para a casa de praia de alguém. Pode ser que você realmente esteja sem grana, com algum compromisso inadiável ou até com uma vontade incrível de assistir, de uma só vez, a terceira temporada completa de Lost. Mas não sou eu, a partir de agora, quem vai tentar convencê-lo de que a vida passa correndo e é preciso aproveitar os sábados ensolarados, de preferência com os amigos e numa casa de praia. Não, senhor.
Essa filosofia de botequim nasceu quando me vi pensando sobre a participação do azeite em minhas refeições. Provei-o aos vinte e cinco anos. E coloco em todos os meus almoços e jantares. Na sopa, no arroz, na carne, no frango, no porco, no peixe, no purê de batatas, em cima do queijo que fica em cima da torrada, em cima da torrada, no sanduíche, na pizza, no macarrão e no que mais aparecer à minha frente. Como diabos consegui passar tanto tempo sem experimentar algo tão bom? Foi quando descobri que não preciso de pressa para conhecer as coisas. A vida é longa, meus amigos.
Um exemplo. Em 2005 passei por uma espécie de vício. Precisava ler cinco livros por mês. Cheguei, várias vezes, a levar um no colo enquanto dirigia - lia quando parava nos sinais. Meu tempo livre era dedicado à literatura: antes do almoço, depois do almoço, no banheiro, antes de dormir, ao acordar, na fila do banco, no intervalo das aulas, durante as aulas, quando não tinha ninguém na sala do estágio. Hoje em dia leio um ou dois por mês, sem pressa, e descobri outros prazeres: partes de livros já devorados, revistas, contos soltos, poesias soltas, quadrinhos, revistas de design, palavras-cruzadas.
Rio de Janeiro era um lugar que eu sentia vergonha de não haver conhecido, principalmente quando morava fora e todos os gringos conheciam a Cidade Maravilhosa. Fui lá há dois meses e, durante os cinco dias de minha estadia, conheci pouquíssimos lugares, mas tirei o máximo que pude de cada um. Como as duas horas que passei no Cristo, lendo Travessuras da Menina Má (sem ser por vício) e parando de vez em quando para tentar adivinhar a nacionalidade de uma galera que passava por mim. Não quis conhecer o Rio em cinco dias. Decidi voltar lá varias vezes. Mangueira, Portela, Pão de Açúcar, Maracanã, Lagoa Rodrigo de Freitas, Leblon e minha amiga Ludmila que me esperem um tanto mais.
Com isso na cabeça, confesso que ando mais tranquilo. A Europa vai estar ali quando eu tiver dinheiro e férias para visitá-la. Machu Pichu existe há não sei quantos mil anos, vai existir nos próximos também. Don Quijote de La Mancha vai continuar na minha prateleira quando eu dominar completamente o espanhol e tiver coragem de ler aquele tanto de páginas. Bacalhau vai continuar sendo feito na casa de alguém até o dia em que eu tiver coragem de experimentar. Eu não vou viver programado pra morrer amanhã. E a idéia de passar mais alguns anos sem comer bacalhau me parece muito boa.
7 comentários:
Valeu, Rafa. Obrigado por ter escrito tudo isso por mim.
A Europa tá me esperando, pra um dia eu retornar.
Machu Pichu tá me esperando, pra um dia eu subir.
O azeite, felizmente, não deixa de me acompanhar. E o bacalhau tá chegando.
adorei, como sempre, o texto. show de bola. me lembrou muito minha terrinha do coração (Portugal). =)
beijo pra tu tomatino!
eu gosto dessa filosofia de boteco, gosto do texto e gosto de bacalhau. e um dia, quando tu deixar de birra e resolver provar o tal quitute, vê se prova um legítimo portuga... com batatas, pimentões coloridos e molho branco. é bom dimai.
putz, chega deu água na boca agora. bacalhau da minha vó, com muita batata e, claro, MUITO azeite.
Hermano...Bacalhau combina com azeite assim como arroz com feijão. Dito isto, e em face da sua paixão por azeite, prova o peixinho oriundo dos mares frios que tu vai gostar! Abraço e parabéns pelo texto!
mago,
queria não estar com pressa pra dizer o quão acho legal o texto. mas indo de encontro ao que prega a sua filosofia, serei breve: do caralho.
abração.
thiago.
adorei o blog!!
(vim ler por indicação da queridíssima lu)
texto muito legal esse teu, assim como alguns outros que bisbilhotei.
e eu concordo com a idéia...
mas... bacalhau com azeite não dá pra perder!
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