por Maria Rita Angeiras
Deus, o que estou fazendo tão longe de você? Você pedaço de mim. Eu pedaço de você. Nós sempre aos pedaços de tanta saudade. Você que sorri e ama o mundo de graça e com o coração aberto, escancarado, porque ele não te deve absolutamente nada e porque você está sempre mil anos à frente de pessoas como eu, mera mortalzinha cheia de dúvidas, defeitos e manias. Você que é inteligente, e de quem eu roubei quase todos os meus livros antigos, porque a gente ama contar letrinhas juntas dia de domingo, ignorando essa coisa boba que é a distância. Você que adora meu novo jeitinho calmo de viver, porque você já estava meio cansada de rezar todos os domingos pra salvar minha alma das minhas paixões tão erradas. Você que também sabe aquele trecho do livro de Clarice Lispector e que recita comigo ao telefone quando o aperto fica gigantesco e a gente fica tentando se achar por telefone. Você que me quer por perto, você que me aceita longe, você que me diz, de coração partido, que quer que eu seja muito feliz, independentemente de onde. Você que é toda linda do jeito que veio, por dentro e por fora, sem aquela tranqueira artificial que a maioria das mulheres usa pra sair de casa. Você que me puxa lá do fundo do meu pocinho existencial quanto eu tô perdida e me mostra o caminho, porque você é aquele tipo de pessoa que tem muita certeza das coisas. Você que me liga sete vezes quando eu não atendo, e que me deixa louca com essa mania de achar que meu bairro fica alagado quando chove, que minha gripes são sempre bronquites e que as árvores que caem aqui em São Paulo miram sempre na minha cabeça. Você que tem a educação e os gestos de uma princesa e a falta de frescura de uma plebéia, se juntando ao povo quando tenta sambar pela Mangueira. Você que conversa comigo horas na frente da praia, sentada num banquinho branco, vendo a onda bater na areia, enquanto a gente discute bobagens e enxuga as lágrimas da despedida que está por vir. Você que fica chocada com minhas maluquices de menina, e no instante seguinte já se corrige ou disfarça, porque você nunca quer que eu pare de te contar esses absurdos fantásticos que acontecem na minha vida. Você que me dá bronca, briga, dá sermão, me obrigando a tirar o telefone da orelha por alguns segundos, porque isso é coisa de mãe e há que se respeitar o direito de falar. Você que tem nome de santa, jeito de santa e até já ganhou o apelido de Tia Santa. Você que tem um pedaço comprado, cercado, loteado e construído no meu coração. Você que eu queria bem perto. Você que é mãe de três meninas que te amam do tamanho do sistema solar. Mais Plutão.
Feliz Dia das Mães, meu docinho.
3 comentários:
Amo você, minha menina, assim como amo Nanda, Bebel e Clarinha, como só é possível amar aos que nos antecedem e aos que descendem de nós: de forma incondicional.
E sinto sua falta, sim, e só não fico mais trite porque me consolo em Pessoa, quando diz: "da mais alta varanda da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a eternidade. E não estou alegre nem estou triste: esse é o destino dos versos".
Mami
as marias mais lindas do mundo.
amo todas vocês.
Ritinha, muito mais que emocionante a crônica de Dia das mães de minha Tia Santa.
Tia Santa, você é INCRÍVEL!
Dida.
Lindo, ritinha. que Lindo ficou esse textinho...
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