por Rafael Moreno
O grande problema do homem é o microfone. Dê a ele um microfone – e a isso me refiro a dar atenção, voltar olhos e ouvidos, ok, vocês entenderam – e ele falará qualquer besteira. Só falará besteira. Talvez uma coisa interessante aqui ou ali, mas de fato, resumindo, juntando tudo e colocando num pote, sairá apenas besteira. Ah, como o ser humano fala besteira. Em agências de publicidade isso acontece o tempo inteiro sem parar. Dê um microfone para um atendimento e espere. Ele destruirá a sua linda e trabalhosa campanha com mil receios e argumentos bundões. Nos primeiros minutos eles te escutam, ou fingem bastante bem. Na verdade, estão juntando argumentos, fazendo uma lista na memória, lembrando de tudo o que o cliente pode talvez quem sabe não gostar. E jogam isso devagarzinho para você, começando com um “sabe o que eu acho?”. Derrubam tudo.
A culpa não é só deles. Admito. Boa parte desse despreparo e desse incrível medo de ousar, vem do cliente. Estes têm o microfone ligado no volume máximo. Falam o que querem, mudam o que querem, criam na hora uma frase que você demorou cem frases para fazer. Todo mundo é redator, todo mundo é diretor de arte. O cliente tem o maior microfone do mundo. E nem vou perder linha desse texto falando sobre o “profissional de marketing”.
No Domingão do Faustão os convidados têm microfones espetaculares. O próprio Faustão tem um incrível. Mas os convidados, quando precisam falar sobre temas delicados, como guerras, fome, células-tronco ou até temas mais simples (mas não menos complexos), como o ciúme, a paixão, a traição, falam umas asneiras que me doem os ouvidos. Doem mesmo.
Tem também as tias das namoradas. As tias das namoradas merecem um parágrafo porque usam você como platéia. Como os maridos não as escutam mais e elas precisam de um espectador masculino, sobra para você, que é legal a maior parte do tempo e quer o melhor para a sobrinha delas. O problema é que essa tia ocupa todos os espaços da sala emendando um assunto no outro sem nem perceber que acabou a cerveja do seu copo e você quer, precisa, um pouco mais. Na casa das tias da namorada, namorado nenhum tem opinião.
Mas ainda não chegamos no pior tipo de palestrante que existe. O pior tipo de palestrante que existe é aquele nasce com o microfone colado ao corpo, no maior estilo Silvio Santos (pronto, chegamos). Tente lembrar: você certamente possui um amigo, um primo ou um colega de trabalho que é assim. Opinam absolutamente sobre tudo. Fale de futebol e ele chamará a atenção para si, falando sobre futebol, mesmo que entenda pouco ou quase nada do assunto. Fale de forró, tricô ou mini-bugues e ele terá uma história melhor que a sua. Fale de novela e, caso ele não goste de novela, vai falar que “se tem uma coisa que eu não gosto é de novela! Deus me livre das novelas! Pra vocês terem uma ideia, a última a que assisti foi Tal! Aquilo sim era novela! Novela Tal!” Pronto, ele volta à cena, discorrendo sobre a novela Tal com mil recordações: personagens, jargões, cenas divertidas, enquanto você, que sabe tudo do tema, precisa prestar atenção.
É sério. O palestrante sempre tem uma piada melhor que a sua, uma história mais interessante que a sua, ele já foi assaltado mais vezes que você, marcou um gol de bicicleta, viu seis vezes aquele filme e leu oito aquele livro, de trás para frente. O palestrante ri mais alto, porque até o riso dele tem que chamar atenção, senta na cabeceira, não come qualquer tipo de queijo ou, ao contrário, come todos sem saber a diferença - deixando bem claro que não liga para a diferença. O palestrante ama ou odeia tudo. É um sujeito de extremos. Ele pode ser muito legal ou pode ser muito chato. Mas ele tem que aparecer.
A verdade é que todo mundo tem seu momento palestrante. Nem adianta se esconder. Todo mundo tem um espaço onde é ouvinte, mas também tem um espaço onde é palestrante. Com a namorada, com os amigos de infância, na mesa de jantar. Alguns falam muito na casa do pai e pouco na casa da mãe. Outros possuem microfones com a turma da faculdade e são mudos com o pessoal do estágio. Isso muda em cada círculo. Mas quem tem voz, quer falar. E bom seria se todos nós discutíssemos apenas sobre o que entendemos. Se discutíssemos apenas sobre o que entendemos, o mundo teria conversas mais interessantes.
Por isso repito: o grande problema do homem é o microfone. E o grande problema, insisto: é que gostamos do microfone. De ser palestrantes. Queremos uma platéia. Queremos mesmo. Para conquistar uma menina, os amigos, o chefe. Gostamos do microfone e é esse o nosso grande problema – é esse o grande problema da humanidade. Você pode ter orgulho de ser ouvinte, querido leitor. De ser um cara simples, humilde e pouco vaidoso, mas quando colocarem um microfone na sua mão, vai gostar. Sei que vai gostar. E vai acabar falando besteira. Acontece com todo mundo. Aliás, não sei se deu para perceber, mas está acontecendo comigo desde que o texto começou.
20 comentários:
Silvio Santos realmente nasceu com um microfone grudado no corpo. Boa.
Ass:. Berna.
Escrever num Blog também é usar de um microfone, viu?
Principalmente pra chamar a atenção da mulherada.
hahahah
beijo.
Mora, como sempre muito bom. A equipe sempre utiliza esse microfone, todos os dias com os emails trocados e sempre quando nos encontramos. Cada um que queira contar uma estória, mas o bom é isso, se não fosse assim não tinha graça.
Beijo
Fiquei refletindo em q meio eu era mais ouvinte q palestrante! No trabalho não, amigos de faculdade tb não, de colégio tampouco, família nem se fala... Namorado! Talvez, se ele for extremamente culto, eu só balance a cabeça... Mas, em geral, fiquei preocupada agora! Eu sempre soube q eu era muito falante e metida a opinar sem entender do assunto, mas nunca tinha parado pra pensar q as pessoas devem se irritar com isso :P
Muito bom, Rafildo!
Xêro,
Danda.
muito bom o microfone em suas mãos, viu?
(sem duplo sentido, adorei o texto)
beijo,lindo.
Ok, ok, confesso: eu pensei besteira de primeira ao ler o título "o grande problema do homem é o microfone"! Rs.. Como diz a Danda, Rafildo (ó, né por nada não mas o 'fofis' tá ganhando) já confessei, mas vou discordar de tu, posso? O grande problema do homem não é o microfone, mas se achar dono dele, aí é de lascar! E eu, com essa, estou reforçando a teoria! Rs..
Adorei o texto, e no final minha primeira leitura tinha razão de ser né? Besteira! Rs..
Agora eu entendi porque tu gosta de escrever. É o único jeito de ser palestrante sem ninguém levantar a mão pra fazer pergunta. Tá Tá, o comentário é um tipo de "levantar a mão", mas ai tu pode ignorar se quiser.
Ninguém aguenta mais o microfone do Faustão. hehehe
Massa o post meu velho.
abraço
É não, Leo. Rafa gosta de escrever porque se for palestrante falando, neguinho vai levantar a mão o tempo inteiro:
-Não entendi o que você falou. Pode repetir mais devagar, por favor?
hahaha
Brincadeira, brincadeira.
Adoreeeei o texto, Rafa. De verdade.
Beijo.
muito legal. Tem dias que dá uma vontade incontrolável de desligar o micrfone de todo mundo!!!
Fala filho!!
tinha que ler né?!?!? Tavam todos falando sobre ele. Como sou um Palestrante vou ter que discoradar da parte da turma do atendimento, e principalmente do profissional de MKT, como não poderia ser diferente.HAHAAHAHA
Gostei do Texto, ficou massa.
Abraço,
K
Adoro quando você assume o microfone, rafa!
Beijão, luba.
não entendo de microfone... posso comentar sobre violão?
O problema é que as pessoas sentem necessidade de sempre estar massageando o EGO.
E olhe que tem gente que torna isso uma filosofia de vida, viu?!
Sinceramente "Rafildo", ainda bem que acabamos falando besteira.Por que ninguém merece esse povo que fica querendo ser essa "Joana"(do caro amigo Muhle)o tempo todo só para não perder o posto de palestrante.
Móooo,
Tira o microfone do meu povo, Mó!:)
Texto massa!
Beijo grande
Ei, eu sou cliente, vú?! kkkkkkkkk
Muito bom o texto.
bjs,
Carol (amiga de André)
minha vida não será a mesma...acho q nasci com um daqueles q vem grudado na orelha...mas o q me tranquiliza é q tem gente pior...
muito bom mora...
Serginho
Idéia massa, texto muito massa, Rafa.
Concordo contigo em gênero número e grau, mas acho que existe uma espécie humana que tem medo de microfone... Tu num acha não? Tem uma turma que foge e corre léguas de uma platéia...
eu ia dizer justamente isso!!! (mas não precisei, por conta da última frase do texto). heheh
Rafael Moreno meu filho do meio!
gostei do texto, muito bom hehehe me identifiquei com várias partes!
aquele abraço
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