por Maria Rita Angeiras
Escrever é tocar alguma coisa. Uma coisa que às vezes é macia, mas que às vezes fere, até ferir tantas vezes que um dia o machucado fica tão grande que é preciso parar e cuidar da mão. Escrever acontece. E em alguns períodos acontece com tanta frequência que é preciso dar um passo atrás, antes que se adoeça do oco que se sente entre a linha um e a linha dois. E existe o cansaço físico de transformar letra em sentimento e sentimento em letra, porque é impossível equilibrar a limitação das palavras com a adorável ilimitação da vida. Escrever adoece. O pulmão, o coração, o peito e qualquer parte sensível que não aguente o sufoco de vibrar numa rima e morrer na outra, repetidamente. Escrever é uma troca. E sempre faz bem para os dois lados, mas não é saudável usar o ombro de quem lê para enxugar as lágrimas de quem escreve. Por isso, é preciso respeitar a ausência, sem achar que a falta da coisa escrita é a falta da própria pessoa que escreve. É preciso absorver o vazio, sem precisar recorrer à última gota de poesia, porque esta nunca se deve tirar do sangue que passeia no corpo. E, por fim, é preciso aceitar, com doçura, o silêncio, sem nenhum sentimento de perda, mas acreditando que, com ele, se ganha outra coisa. Outra coisa que engrandece. Outra coisa que não está escrita. E que nem precisa estar.
Eventualmente eu volto a escrever.
6 comentários:
Fiquei aqui lendo, lendo, lendo. Quase puxo comentário pedindo desculpas pela parte que me cabe nesta ânsia por devorar os textos do blog, sabia? Ai, réu confessa, como diria o Tim (Maia, lógico!), digo: que pecado cometo pela voracidade que tenho do alimento que busco? Não é verdade? Mas aí, veio um tal de Samarone que pimba! Aliviou a minha culpa! Ufa! (Rs..)
Parabéns André, menino Muhle! Parabéns Rafa! E sim, igualmente parabéns Ritinha! Vc tem uma razão absoluta: escrever acontece! E essa troca (pra mim) é fantástica e nada eventual!
Ó céus!
Que esse "eventualmente" seja, na verdade, frequente. E que esse "até logo" seja breve mesmo... senão... eu enlouqueço!
escrever sempre escrevendo
sempre.
Com esse "logo" que a vida tanto cobra, a gente esquece da gente e de como isso é fundamental para que as palavras venham e os sentimentos que elas mexem não nos travem..
Realmente,têm coisas que não precisam ser ditas, explicadas ou muito menos escritas!
Muito bom, e até logo! Não no meu logo, mas no seu mesmo..
É impossível não sentir a perda...
Possível é aprender a lidar com ela.
E torcer para que o rio volte a correr sem fazer tantos estragos.
Amor incondicional
Lori
obs: quem vai saber se precisa é você. Só você...
e assim, docemente, ela pede licença a nós, vorazes consumidores, treinados para devorar cultura como quem devora um fast food, desesperados pra saber, crescer, ouvir, entender, discutir, questionar, preencher.
ritinha, flor, a gente só te aplaude e agradece.
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