segunda-feira, 17 de agosto de 2009

ATÉ LOGO

por Maria Rita Angeiras


Escrever é tocar alguma coisa. Uma coisa que às vezes é macia, mas que às vezes fere, até ferir tantas vezes que um dia o machucado fica tão grande que é preciso parar e cuidar da mão. Escrever acontece. E em alguns períodos acontece com tanta frequência que é preciso dar um passo atrás, antes que se adoeça do oco que se sente entre a linha um e a linha dois. E existe o cansaço físico de transformar letra em sentimento e sentimento em letra, porque é impossível equilibrar a limitação das palavras com a adorável ilimitação da vida. Escrever adoece. O pulmão, o coração, o peito e qualquer parte sensível que não aguente o sufoco de vibrar numa rima e morrer na outra, repetidamente. Escrever é uma troca. E sempre faz bem para os dois lados, mas não é saudável usar o ombro de quem lê para enxugar as lágrimas de quem escreve. Por isso, é preciso respeitar a ausência, sem achar que a falta da coisa escrita é a falta da própria pessoa que escreve. É preciso absorver o vazio, sem precisar recorrer à última gota de poesia, porque esta nunca se deve tirar do sangue que passeia no corpo. E, por fim, é preciso aceitar, com doçura, o silêncio, sem nenhum sentimento de perda, mas acreditando que, com ele, se ganha outra coisa. Outra coisa que engrandece. Outra coisa que não está escrita. E que nem precisa estar.


Eventualmente eu volto a escrever.

6 comentários:

Edízia Lessa disse...

Fiquei aqui lendo, lendo, lendo. Quase puxo comentário pedindo desculpas pela parte que me cabe nesta ânsia por devorar os textos do blog, sabia? Ai, réu confessa, como diria o Tim (Maia, lógico!), digo: que pecado cometo pela voracidade que tenho do alimento que busco? Não é verdade? Mas aí, veio um tal de Samarone que pimba! Aliviou a minha culpa! Ufa! (Rs..)

Parabéns André, menino Muhle! Parabéns Rafa! E sim, igualmente parabéns Ritinha! Vc tem uma razão absoluta: escrever acontece! E essa troca (pra mim) é fantástica e nada eventual!

Unknown disse...

Ó céus!
Que esse "eventualmente" seja, na verdade, frequente. E que esse "até logo" seja breve mesmo... senão... eu enlouqueço!

Roberto B. disse...

escrever sempre escrevendo

sempre.

Joana disse...

Com esse "logo" que a vida tanto cobra, a gente esquece da gente e de como isso é fundamental para que as palavras venham e os sentimentos que elas mexem não nos travem..
Realmente,têm coisas que não precisam ser ditas, explicadas ou muito menos escritas!
Muito bom, e até logo! Não no meu logo, mas no seu mesmo..

Anônimo disse...

É impossível não sentir a perda...
Possível é aprender a lidar com ela.
E torcer para que o rio volte a correr sem fazer tantos estragos.

Amor incondicional

Lori

obs: quem vai saber se precisa é você. Só você...

ana danos morais disse...

e assim, docemente, ela pede licença a nós, vorazes consumidores, treinados para devorar cultura como quem devora um fast food, desesperados pra saber, crescer, ouvir, entender, discutir, questionar, preencher.

ritinha, flor, a gente só te aplaude e agradece.