por Rafael Moreno
O sol entra pela janela exatamente na altura dos seus olhos. Se fosse um pouco mais alto não se incomodaria, mas se incomoda, mas não faz esforço para tirar o sol do rosto, não quer fechar a cortina. Nada parece ser capaz de levantá-lo do sofá. Este, parece ter mil braços que o agarram e prendem-no ali o dia inteiro. O tempo inteiro. Às vezes a televisão está ligada e alguém que passe pela casa pode pensar que ele está entretido. Conversa. A televisão está desligada para ele. São apenas imagens que fazem barulho. O pior é pensar que chegou um dia a ser esportista. Nada que rendesse uma medalha, ou algo assim, mas tinha uma bicicleta, chegou um dia a ter uma bicicleta, um par de patins. Também já teve amigos e jogou futebol nas quartas-feiras. Hoje, não lembra de ter amigos, não liga pra eles, não recebe telefonemas, não recorda a quem deu a bicicleta, ou se jogou-a na rua ou se ainda está guardada em alguma quina da casa, lá pela área de serviço, perto dos patins. Faz algum tempo que não joga futebol. Poderia muito bem se esforçar um pouco, vestir uma calças, cortar o cabelo, mas é difícil. Enquanto Alice não voltar para casa, vai continuar sentado, geralmente deitado, olhando para esse quadro estúpido que ela deu para ele há alguns anos, com um campo de flores da Holanda e uma holandesa, de cabelos loiros, claro, e um vestido marrom, com um avental branco na frente.
O problema, pensa sempre e, às vezes, fala disso na hora do almoço, é que ela pediu a verdade e quem deseja ouvir a verdade precisa estar preparado para ela. Quem deseja ouvir a verdade precisa estar preparado para ela, repete, às vezes. Alice, obviamente, não estava. E o problema, ainda maior, é que ele duvidava que um dia estaria. Mesmo assim esperava. Sentado, deitado, naquele sofá, esperava. Com o sol fechando-lhe os olhos, esperava. Com a tevê fazendo barulho, esperava. Acontece que hoje, justo hoje, quando o almoço será feijão preto com bife de molho, o seu prato preferido desde que tem oito ou nove anos de idade, justo hoje, que também teria farofa de jerimum, coisa que não existe aqui, ele decidiu dar uma volta. Primeiro precisou se alongar. Em seguida trocou de roupa – era demais pedir que tomasse banho. Colocou aquela calça jeans que já anda meio desbotada, mas que ele nunca conseguiu tirar do corpo por muito tempo. Colocou aquela calça jeans, com uma camisa preta e um casaco, acho que cinza. E saiu, sem tomar banho e sem se despedir de mim. Nunca foi de se despedir mesmo, eu não iria me chatear justamente agora.
Soube, depois, por amigos, que caminhou pela Santa Fé até chegar no Jardim Botânico, sem nem ao menos olhar as tantas vitrines que existem por lá. Por ali andou se escondendo dos gatos, pois nunca conseguiu perder esse medo que possui desde a adolescência, até encontrar um banco tranqüilo, ou seja, sem gatos por perto, imagino, e quedou-se a olhar as árvores, os pássaros, as fontes sem água por causa do inverno, os estudantes de botânica que passam horas frente às plantas, com seus cadernos e suas câmeras fotográficas, atentos às placas com os nomes das árvores em latim. Também não levou seu iPod, seu mp3, não sei, e, portanto, não escutou aquele artista africano que tanto escutava antes de Alice, junto com Alice, que era mais fã do que ele. Ficou ali por um tempo, me disseram uns amigos, até que, cansado do Jardim Botânico, caminhou até a Plaza Itália, onde comprou esses livros que agora estão em cima da mesa de jantar, que ainda carrega o seu almoço frio.
Comprou esses livros, mas não tenho ideia se chegou a ler alguma página, sei que tem um de um escritor chamado Cortazar. Não sei se tem acento. Mas enfim voltou pra casa, de noite, com esses livros e umas empanadas, que colocou na geladeira. Já era noite, eu estava vendo a novela, mas me levantei e fui pro meu quartinho. Já era noite e, por isso, pensei que jantaria as empanadas. Mas agora vejo, agora que já é dia outra vez, vejo que voltou ao sofá e que não comeu as empanadas, nem o almoço que fiz com tanto capricho. Está deitado no sofá, com a televisão ligada do mesmo jeito. Daqui da cozinha eu consigo ver, está passando um filme antigo, em preto e branco. Ele não assiste. Acho que vai demorar a sair de casa outra vez, pois quando acordei vi que a janela está com as cortinas bem fechadas.
6 comentários:
Porra bicho, gostei pra caralho...me lembrou muito alguns trechos de "Budapeste", só que de uma geração da era do ipod...abraço!
cara, genial... as vezes converso comigo assim mesmo. coisa de gente louca.
Esse superou, Rafa. Ficou muito massa mesmo. Parabéns.
Não tem como negar, é um ilustríssimo "cronópio" (hehe). No maior estilo daqueles que nosso querido com acento escrevia tão bem!
Rapaz, sr. Rafael!Sério mesmo..
Muito bom!Parabéns
Me lembra Divertimento. Daquele cara... O "com acento". Tá ótimo Moreno! =)
Muito bom cara. De verdade. Já pensasse em fazer isso profissionalmente?
Brincadeira. Gostei mesmo.
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