quarta-feira, 5 de agosto de 2009

O PEQUENO INSTANTE DE UM DIA

por Maria Rita Angeiras



Você me perturba, perturba meu sono e perturba minha fome com suas conversas. Eu não consigo dormir direito, fico me remexendo na cama. Acordo toda errada, toda confusa, toda despedaçada e chego a passar meia hora encarando a fumaça do chuveiro, com o olhar lá longe, em qualquer lugar do mundo, menos onde devia estar. Demoro a encontrar uma roupa, detesto todas e escolho qualquer uma. Tomo café da manhã quase me jogando na cama de novo, perco a hora e entro no elevador ajeitando o cabelo que eu esqueci de ajeitar porque não lembrava o que fui fazer na frente do espelho. Gasto quinze minutos tentando tirar o nó do meu cordão, meio aérea, e esqueço a vida lá fora, as pessoas lá fora e tudo que acontece à minha volta. Subo as escadas do trabalho totalmente inconsciente, sento na minha mesa e só fico pensando em coisas que não fazem o menor sentido, totalmente desconexas, sem chegar a conclusão alguma. Não consigo juntar duas palavras, formar uma frase completa ou ter uma conversa decente com ninguém, porque a verdade é que nem me apetece falar nada. Fico ouvindo as mesmas músicas dezenas de vezes, talvez para não pensar, mas não faz a menor diferença, porque nem pensar eu consigo direito, são só alguns pedaços de várias coisas aleatórias. Tento escrever um poema, uma crônica, um pensamento ou tirar alguma poesia de mim, mas o esforço é ridículo e quando percebo já se passaram duas horas e o computador continua em branco. Meu relógio funciona, mas às vezes para, e de vez em quando volta, e eu nunca tenho noção de hora. Ando na rua e ela parece vazia, e parece que eu vou flutuar, mas volto e, inconscientemente, me puxo de volta. Sento no restaurante de óculos escuros, completamente na minha, e saio ainda mais na minha do que entrei, depois de odiar a comida, achar o suco azedo e o lugar frio. É como se você desse um pause na minha vida. Suas falas passeiam pela minha frente como um filme, que eu fico assistindo vinte e quatro horas, imóvel. E, por um dia inteiro, não sei quem eu sou, não sei o que eu quero, não sei em quem acredito. Você nunca erra. Você fala a coisa certa. Você me entende. Você me arranca, pedacinho por pedacinho, das minhas próprias mãos. E eu não sei o que fazer com o que sobrou de mim. E deixa eu te dizer. Você me perturba.

4 comentários:

Edízia Lessa disse...

Menina, tu entende mesmo do riscado hein? Afee.. Muito bom!

Renata disse...

Amor a segunda vista?

Unknown disse...

vc senti isso. é horrivel! adorei o texto! super de parabéns!

Anônimo disse...

...
fã!
Dida.