segunda-feira, 2 de novembro de 2009

ESQUECEU O COMPUTADOR ABERTO PORQUE QUIS

por Rafael Moreno


Eu sou nervoso. Muito nervoso. Desses de suar nas mãos e nos sovacos. E, quando a situação é muito forte, no cabelo. Minhas têmporas ficam encharcadas. Você sabe o que é uma têmpora, não é? Pois bem, a minha fica encharcada. Eu sou nervoso. E fico nervoso com coisas pequenas, como uma fila de supermercado.

Sabe aquela fila de caixa rápida? É nela mesmo. Fico olhando, quase sem piscar, para o numerozinho vermelho que aparece no visor. Sempre atento a qual caixa devo ir. Não quero parecer um mamão, desligado do mundo.

Em filas de aeroporto é pior ainda. Porque não existe essa tela. Você tem que ficar ligado numa moça, geralmente bonita, que vai levantar o dedo e gritar baixinho: Próximo, por favor. Fico atento porque não quero correr o risco de ser um Lucas Silva e Silva para a moça bonita do aeroporto. Principalmente porque também fico nervoso na frente de moças bonitas.

Foi por isso que, lá pelos quatorze anos, tive a ideia de criar um botãozinho mágico, que seria vermelho e ficaria no bolso direito da minha calça. É só apertar e, puft, desaparecer. A ideia surgiu depois de uma vergonha muito grande que passei: tropeçar no meio do Shopping Center Recife. Cá entre nós, depois de amendoim no dente e soluço que não termina, tropeção em público é a coisa mais ridícula que um ser humano pode passar.

Da época da escola – e da faculdade – lembro que o terror do meu dia era a hora da chamada. Para não demorar a responder, comecei a decorar os nomes que vinham antes do meu. E olhem que me chamo Otávio. Sou tão tímido que nunca tive amigos a ponto de ganhar um apelido. No trabalho todo mundo me chama de Otavio. Só eu mesmo me chamo de Tavinho. Aliás, nem eu me chamo de Tavinho.

Não tenho mais namorada porque sou incapaz de jantar com os sogros. Era terrível ficar mudo, só concordando com o que diziam. Balançando a cabeça para dizer sim ou não. Se me ofereciam algo, eu dizia sim. Se perguntavam se eu queria mais, eu dizia que não. E ficava com o sorriso ligado no automático. Sem contar o quanto eu suava. De ficar molhado. Aí eu poderia falar algo como Tá calor, né? Mas evitava. Se eu pudesse evitar, eu evitava.

Mas tá bom. Tá bom de tanta introdução porque vocês já entenderam o meu problema. Passaria a tarde inteira escrevendo sobre minha timidez, mas não posso porque jajá o dono desse computador pode aparecer e, com certeza, vai achar estranho essas palavras aqui escritas. Vou direto ao assunto: consegui ser invisível.

Lembra da história do botão mágico? Tá aqui no meu bolso. Mas você não consegue ver o meu bolso porque eu sou invisível. Mais ou menos como aquele comercial da Nokia, só que de verdade. Isso aconteceu há uma semana, quando soltei um pum no elevador e, logo em seguida, entrou a menina do décimo nono. Você sabe o que é ter um cheiro ruim durante dezenove andares, mais o pilotis e o estacionamento? Agüentei até o quinto andar. Depois desapareci. Ela não percebeu direito que eu sumi porque minha natureza já é meio discreta. Eu acho.

Acontece que estou invisível há uma semana. E decidi ficar assim para sempre. Só vou no trabalho para tirar a cadeira do chefe do lugar. No ônibus, fico apertando o botão o tempo inteiro. E sempre tem alguém que leva a culpa por mim. Também tenho ido a boates, coisa que nunca fiz, e passo a noite imitando Michael Jackson, dançando o Break e fazendo o robozinho. Tudo sem ter vergonha. Posso voltar a ser visível quando quiser, mas andei pensando e a minha vida assim é bem mais divertida.

Ainda estou tratando de descobrir o que posso fazer. Entrar no vestiário feminino certamente é uma opção. Mas enquanto isso, encontrei esse computador dando sopa e descobri que o dono tem um blog. Agora que sei a senha, podem se preparar que vai ter mais textos. E ai desse Rafael Moreno se ele tentar mudar uma vírgula.

21 comentários:

Anônimo disse...

Só to comnetando porque eu sempre tive vergonha de comentar aqui...beijo rafa
Manoela Betto (a tosca)

Anônimo disse...

Aproveita q tá na Argentina e, melhor de tudo, invisível, e dá um "pedala Robinho" no Maradona. Bjs. Mel.

Karol disse...

Poderia fazer uma dupla de invisíveis com esse otávio se o meu botão vermelho não tivesse quebrado há tempos e sem sucesso.
E, mais uma vez, parte desse texto me lembra Fernando Sabino.

:)

Filli disse...

Porque Ritinha tá sem boné na foto dos três?

um dos três disse...

é que a blusa com a foto do che guevara, que eu comprei pra combinar com o boné, não ficou pronta a tempo, aí eu desisti. droga, perdi uns 50% de intelectualidade com essa mancada, né?

hahahahaha... boa, filli.

beijos

ritinha

Unknown disse...

hahahahaha
tu é uma figura, rafa.

Luna Freire disse...

Ora, Tavinho... Eu já tropecei pelo menos umas três vezes no Shopping Center Recife. Fiz pior: Entrei de cabeça no portão de vidro. Dá pra me repassar a fórmula do botãozinho vermelho?

JJ Santos disse...

moreno, karrapato me ensinou uma receita infalível contra soluços intermináveis. basta comer uma colher de sopa de açúcar. juro! funciona na hora.

xablém!

Ivana de Souza disse...

Id, né?

Edízia Lessa disse...

Meninos, esses comentários estão ótimo! Achei a solução pros soluços intermináveis que tenho quando solto risadas (sim, pobre não pode nem rir muito que tem soluço) e pós-refri. (Adorei a diga JJ, juro que vou testar se funciona, rs..)
Texto delicioso Rafa, me achei várias vezes.. e lembrei de todas as quedas que sofri em público, inclusive em shopping, cinema, escola.. vixe maria.. rs.. adorei o homem invisível e seu botão vermelho, se tivesse um também entraria no vestiário masculino, eeeepa..

g. calumby disse...

Grande Moreno... tava lendo aqui, viajei! hehehe bom blog, idéia massa de voces.
Aquele abraco.

Nunes Rebok´s disse...

Graaaaande Tavinho!!!!

eheheheheheh!

ótimooo!

Joana disse...

Ô Seu Otávio, com tanto poder até que podia ter sacaneado mais com esse escritor. Mas não é que também tem jeito para a coisa!! Cuidado viu, que se esse texto fizer sucesso vão deixar mais vezes o computador dando sopa e o senhor vai virar um belo heterônimo.Rs..
ADOREI!

Renata C. disse...

Incrível, mas me deparei agora comigo e percebi que nunca deixei um comentário por aqui. Incrível porque os acompanho a cerca de 1 ano, e admiro muito o jeito que escrevem. Enfim, parabéns!
Abraços.

Anônimo disse...

muito, muito bom esse texto.
aguardo ansioso os proximos capitulos de otavio...

Parabens pela criatividade!

Isabella Diniz disse...

Bem, eu aguentei o quanto pude, nunca comentei nos textos, mas meus dedos dessa vez tão vindo no automático comentar nesse texto aqui, que pra variar... Está perfeito!
Toda vez que eu vejo que tem texto novo venho correndo ler, de vocês três, você são incriveis! Bem, era só isso mesmo, um desabafo de uma blogueira buscando por inspiração nas palavras simples e mágicas que vocês ousam em escrever !

Mariana disse...

ducaralho, rafa!

Agora, essa parte de 'suar feito um gordinho' eu conheço, viu!

beijo grande, piu

Unknown disse...

Tu tens 2 grandes amigos que nao precisam ficar invisiveis pra peidar ou imitar Michael Jackson...Final do ano eu carrego eles praí...vamos matar a saudade!:)

Beijo,
"Maroca"

Unknown disse...

Tás craque nesse negócio de escrever texto, primo. Quase tão bom feito és em inventar piadas pra perturbar com quem tem a cabeça grande. hahaha.
Abração, Lucas.

Unknown disse...

Rafinhaaa adorei!!
Não esperava por esse final! Muito bom!
Beijooo

Franco Benites disse...

Você ainda pode ficar milionário com este botão vermelho, hein?. Abs.