segunda-feira, 9 de novembro de 2009

FOI UM CHORO TÃO SINCERO

por Maria Rita Angeiras


Segurado com as pontas dos dedos, despejado na gola encharcada da blusa, engasgado como o de criança, desesperado como se fosse o último, mergulhado em poucas palavras, perdido naquela larga avenida, pulado no peito, caído no pescoço, pingado nos braços, escorrido na perna, marcado pela tinta do rímel preto, escondido na manga dos ombros, afagado pelos cabelos, misturado com a água do copo, testemunhado pelo porteiro, comentado pelos seguranças, abraçado pela cama, sentido pelo telefone, interminável como as missas, soluçado pelos cantos, aberto para o mundo, exposto na grade da janela, apontado pelos vizinhos, triste como uma prece, apoiado nas paredes, feito de água, de sódio, de sal, de açúcar, de doce, de dor, engolido pela boca, aspirado pelo nariz, eternizado nas olheiras, exposto como ferida aberta, espalhado pela casa, escutado pelos outros, manchado no lençol, fincado naquele dia, relembrado no seguinte, repetido no outro, mergulhado na pia, secado no vento, refletido no espelho, cansado na barriga, pintado de vermelho no olho, semeado na alma, plantado nos poros, cultivado pelo tempo, germinado na pele, esculpido nas bochechas, jogado do queixo, canalizado pelas coxas, tremido nos pés, agachado na cozinha, apoiado no banheiro, apertado na respiração, acalmado pelos conselhos, silenciado nas conversas, continuado na manhã seguinte, pelo céu, com chuva, e cicatrizado na última noite, no leve gesto da mão fechando de vez a torneira do rosto. Porque se a lágrima é o sangue da alma, então que o destino da lágrima também seja o de ser refém do corpo.

6 comentários:

Anônimo disse...

Aveee! Esse foi profundo, tenso...
Mas, como sempre, muito bem escrito. Parabéns mais uma vez!
IA

Anônimo disse...

"triste como uma prece"
Diria mais: uma espécie de expiação

Bela tradução de um profundo exercício de luto

Cada dia melhor

Lóri

cecília da fonte disse...

angustiante e sensível.

muito bom texto.

Anônimo disse...

Belo
Mas também se chora sinceramente de felicidade, poetisa.

Anônimo disse...

Perfeito!!

Luanne de Cássia disse...

Lindo. Profundamente lindo.