por Maria Rita Angeiras
Segurado com as pontas dos dedos, despejado na gola encharcada da blusa, engasgado como o de criança, desesperado como se fosse o último, mergulhado em poucas palavras, perdido naquela larga avenida, pulado no peito, caído no pescoço, pingado nos braços, escorrido na perna, marcado pela tinta do rímel preto, escondido na manga dos ombros, afagado pelos cabelos, misturado com a água do copo, testemunhado pelo porteiro, comentado pelos seguranças, abraçado pela cama, sentido pelo telefone, interminável como as missas, soluçado pelos cantos, aberto para o mundo, exposto na grade da janela, apontado pelos vizinhos, triste como uma prece, apoiado nas paredes, feito de água, de sódio, de sal, de açúcar, de doce, de dor, engolido pela boca, aspirado pelo nariz, eternizado nas olheiras, exposto como ferida aberta, espalhado pela casa, escutado pelos outros, manchado no lençol, fincado naquele dia, relembrado no seguinte, repetido no outro, mergulhado na pia, secado no vento, refletido no espelho, cansado na barriga, pintado de vermelho no olho, semeado na alma, plantado nos poros, cultivado pelo tempo, germinado na pele, esculpido nas bochechas, jogado do queixo, canalizado pelas coxas, tremido nos pés, agachado na cozinha, apoiado no banheiro, apertado na respiração, acalmado pelos conselhos, silenciado nas conversas, continuado na manhã seguinte, pelo céu, com chuva, e cicatrizado na última noite, no leve gesto da mão fechando de vez a torneira do rosto. Porque se a lágrima é o sangue da alma, então que o destino da lágrima também seja o de ser refém do corpo.
6 comentários:
Aveee! Esse foi profundo, tenso...
Mas, como sempre, muito bem escrito. Parabéns mais uma vez!
IA
"triste como uma prece"
Diria mais: uma espécie de expiação
Bela tradução de um profundo exercício de luto
Cada dia melhor
Lóri
angustiante e sensível.
muito bom texto.
Belo
Mas também se chora sinceramente de felicidade, poetisa.
Perfeito!!
Lindo. Profundamente lindo.
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