segunda-feira, 22 de outubro de 2007

DIS-MOI OUI

por Maria Rita Angeiras

E nós, tão sozinhos de nós mesmos. Desejando desesperadamente amor. Amor superficial e genuinamente capitalista, desejado como todas as coisas que podem ser compradas na vida. Amor individualista e sem troca, exibido em praça pública e jantares íntimos como prêmio de loteria. Estampado em porta-retratos velhos, enquadrados pela dureza do dia-a-dia, enquanto simplesmente sorrimos com nossos dentes brancos. E nós tão patéticos, comprando amor em livros de auto-ajuda, fitas k-7 para meditar, músicas, caixas de chocolate, remédios tarja preta, sessões de terapia e salas de bate-papo. Sofrendo por sentimentos miúdos e achando que isso é amor. Pensando que certidão de casamento é nota fiscal de felicidade. Procurando o par perfeito, como se a vida fosse perfeita o suficiente pra ele poder existir – ou sobreviver. Preenchendo nossos dias com trabalho, na esperança de não nos darmos conta do imenso vazio nos finais de semana. Nos odiando por não sermos amados. Ou pelo menos amados do jeito que nós gostaríamos. Ou imaginávamos. Fazendo falsas promessas em troca de amor, nem que ele seja breve, passageiro, fugaz e impregnado de álcool como as noites de sábado. Exibindo anéis dourados no dedo como condecorações de guerra. Dividindo o teto, mas não a vida. Dividindo a cama, mas não as aflições. Desejando desesperadamente ser resgatados do cotidiano maçante para mergulhar no universo dos contos de fadas que tanto nos prometeram quando éramos crianças. Jurando amar na alegria, na tristeza, na saúde ou na doença, mas nunca quando aparecer alguém interessante numa festa. Compensando as pisadas de bola com a única coisa que tem preço em qualquer relação: presentes. Fingindo ser modernos, bem-resolvidos e ocupados demais para uma coisa piegas como o amor. Entregando o resto de nós pela miséria que os outros têm para oferecer. Prostituindo nossa dignidade por pedacinhos de carinho doados numa noite por zés-ninguém ou marias-ninguém. Morrendo de amor pela falta dele e não pelo excesso. Usando a primeira pessoal do singular com mais freqüência do que deveríamos. Negligenciando a nós mesmos pela necessidade urgente de não morrermos sozinhos, apoiados na desculpa de que a vida é passageira, mesmo que hoje ela dure o mesmo que 10 anos atrás. Morrendo infelizes mas profundamente heróicos, carregando nossos falsos-amores como troféus, sem perceber quão pesados eles acabam sendo. Trocando amor por bebida. Trocando amor por cigarro. Trocando de amor como quem troca de roupa. Percorrendo todos os dias o longo caminho de casa. Acabando a noite sós. Ou acompanhados. Ou os dois juntos. Persistindo na eterna sina de dar amor sem se amar antes. Nós que não temos amor próprio. Nós que não temos respostas. Nós que não temos solução. Nós que não temos nada. Nós que só temos silêncio. Nós, tão sozinhos de nós mesmos. E dos outros.

3 comentários:

flavia disse...

esse teu texto casa tão bem com aquele teu roteiro que um dia a gente pensou em colocar na prática...

muita gente procura amor e só encontra ele quando coloca a cabeça no travesseiro, num fim de dia em que o amor nem passou pelo pensamentos.

um dos três disse...

que bonito, ritao.
beijos!
rafa.

Anônimo disse...

tão teu!
tão bom!
tão "meu"!
bjo mocinha,
Dida