segunda-feira, 22 de outubro de 2007

PASSA AS CONCHINHAS

por Rafael Moreno



Lembro-me bem. Parece que foi ontem. Eu caminhava inocentemente pelas areias de Tamandaré, catando conchinhas e colocando-as num balde verde, presente de minha madrinha. Tinha os cabelos claros, a pele protegida por sundown, as bochechas e o nariz por hipoglos. Usava um boné vermelho e uma sunga azul, com o desenho do super-homem. Vez por outra molhava os pés na água e corria para perto dos meus pais. Medo dos sargaços. Foi numa dessas corridas que tropecei e caí. Foi uma pedra? Foi um tronco? Foi meu balde verde que estava no chão? Nenhum, nem outros. O culpado era um pé. Pequeno. Ao contrário do dono. Ele era chamado por Ricardo, na praia, e André, no colégio. Eu o conhecia de vista e morria de medo daquele gordinho que batia em todos do Helena Lubienska. Baixei a cabeça e aguardei a sentença, que veio forte como o martelo de um juiz. Digo, literalmente, pois levei um cascudo. Tímido, franzino, bem educado, medroso, senti que lágrimas começavam a turvar minha vista e que minha boca tremia um pouco. Era o anúncio de um choro. Não chorei. Olhei para o meu pai que, entretido num jornal, não vira nada. Minha mãe conversava com uma tia. Eu estava só, por bem dizer. Então o gordinho exigiu minhas conchas. São pra completar minha coleção, disse. Num impulso natural, que até hoje não consigo explicar, peguei o balde, o ergui acima da minha cabeça com as duas mãos e joguei todas as conchas colhidas naquele domingo em seu rosto. Joguei com força, de uma maneira que não conseguiria repetir em estado são. Aí senti a raiva nos seus olhos e senti também que inevitavelmente eu iria apanhar. Corri com todas as minhas forças. Pernas pra que te quero. O gordinho demorou um pouco para reagir e, quando reagiu, eu já trazia umas boas canelas de distância. Corremos o dia inteiro. Meus pais pensavam que eu tinha feito um novo amigo. Que bonitinho. Lá pelas tantas ele parou. Caiu.

Seus braços acenavam para mim, balançando no ar. Parei. Vi que colocava uma mão no joelho e tinha cara de dor. Será que devo ajudá-lo? Claro, eu tinha espírito de escoteiro. Fui ao seu encontro e estendi a mão, num gesto de paz e ajuda ao mesmo tempo. Ele segurou minha mão e me puxou com tudo, me jogando na areia. Caído no chão, eu não podia fazer mais nada. Senão chorar. Painhô. Gritei com força. Meu pai veio correndo saber o que acontecera, mas quando chegou o gordinho não estava mais por perto. Achou que eu tinha simplesmente caído, ou algo do tipo. Comprou-me um guaraná, coçou minha cabeça. Tudo ficou bem. Principalmente porque aposto que ele ficou assado.

2 comentários:

Anônimo disse...

eheheheheh, cuidado com as aulas de judô, moreno!! não vá correr não que o tatame é pequeno!

abraço mamão!

Anônimo disse...

É verdade que o tarta ficou assado, e depois encontrou uma pomada de hipoglos velha e usada na praia e usou para curar as brotoejas. Coisa de gordinho mesmo, era brotoeja, molusco e pereba no corpo todo. Eita gordinho danado.
Beijos do Gordo