terça-feira, 16 de outubro de 2007

OLVIDIO PERDIGUEIROS

Por Rafael Moreno



Olvidio Perdigueiros esquecia as paradas. Era um rapaz que tinha o costume de esquecer as paradas. Para antes ou para depois. Quando descia antes, caminhava umas quadras a mais para frente. Quando descia depois, e geralmente descia depois, tomava um ônibus para voltar ou pegava o metrô de volta. Uma vez estava com dois amigos estrangeiros e baixou na parada certa, mas não avisou aos amigos e nem puderam se encontrar de novo. O celular de Olvidio havia ficado no ônibus. Caminhar faz bem, dizia sempre. Só não fazia bem ao relógio. Olvidio Perdigueiros tinha o dom, se é que podemos chamar assim, de chegar atrasado aonde ia. Já entrou duas semanas depois na sala de aula e ainda quis ganhar presença do professor.

Olvidio perdeu seis ou sete namoradas, não se lembra bem o número. Três ou quatro porque esqueceu do encontro ou do lugar. Quatro ou três porque esqueceu da hora. Uma ou duas porque esqueceu que tinha namorada. Olvidio acha que perdeu oito ou nove namoradas.

Era uma terça-feira, talvez quinta, quando desceu do coletivo e perguntou aonde ficava a Avenida Tucuman. Caminhou duas quadras para a direita, mais três em frente e encontrou o número 43. Tocou a campainha e disse Olá, eu sou Olvidio e tinha uma entrevista de emprego marcada para às três. O Jornal Mercantil aceitou Olvidio, apesar dele ser engenheiro e não jornalista e Olvidio aceitou ser jornalista apesar de achar estranho ter chegado a um jornal. Tinha quase certeza de haver lido na internet que a vaga era para engenheiro.

Passou cerca de duas semanas sem voltar para casa porque estava mais acostumado aos números que às palavras. Quando pegou a prática e recebeu elogios do chefe, começou a trabalhar ainda mais. Dormia quando podia. Comia num restaurante vizinho. Tomava banho na própria empresa. Usava roupas compradas na esquina. Em dois anos, ou algo em torno disso, Olvidio já era um dos melhores jornalistas do Mercantil. Sua reportagem sobre Imigração das Tartarugas Marinhas ganhou destaque até em outros jornais e até prêmio ganhou.

No data de entrega do prêmio seu chefe deu a Olvidio um dia de folga. Olvidio decidiu voltar à sua casa. Quando perguntou aonde ficava a rua Cardeal Guruchaga, lhe respoderam que nunca haviam escutado essa rua. Quando disse que ficava no bairro Armeniopo, lhe responderam que nunca haviam escutado esse bairro. Quando falou que era perto da Praça dos Grandes Generais Aposentados, juntinho do Parque Ano Bisexto, coração de Juan B. Justo, lhe responderam que ele não estava em Juan B Justo. Aqui é Santa Ignácia Pureza Inigualável. Como assim? Assim: Santa Ignácia Pureza Inigualável, cidade vizinha de Juan B. Justo. Olvidio ficou um pouco confuso. Na verdade, ficou muito confuso, já que pouco andava sempre. Mesmo assim decidiu ir pra casa.

Chegou, tomou um banho rápido e imediatamente saiu, porque a premiação era às sete e ele queria chegar em ponto, dessa vez. Quando baixou do coletivo de volta perguntou aonde ficava a rua Julionardo VIII e depois de caminhar treze quadras para a esquerda e duas para a direita, Olvidio por fim chegou à Sociedade de Apicultores da Cidade Autonoma de Paranuá.

4 comentários:

Anônimo disse...

Me perdi...

Anônimo disse...

kkkkk,
Loucão esse cara, heim?
kkkk
bjos

Anônimo disse...

pra mim, esse foi um top five, mora! gostei muito, velho! eheheh
abraço!

maria clara disse...

me lembra os contos do Cortazar!
:**