segunda-feira, 14 de julho de 2008

10:02

por Maria Rita Angeiras





Não era do tipo que saía e acordava muito tarde como a maioria das pessoas. Ficava na cama tentando enganar o relógio biológico – chegava até a ir beber água ou tomar café de olhos fechados pra não perder o sono. Ao fazer isso às vezes batia com a cintura na cadeira, mas nem assim desistia da vontade de continuar dormindo. Em vão. Minutos depois a inquietação vencia e ela levantava novamente da cama. Então abria a porta da geladeira e ficava encarando as prateleiras por alguns minutos eternos, sempre com o braço apoiado na porta. Nessa hora se lembrava da mãe, que costumava reclamar do resultado que esse hábito causava nas contas de energia. Ao fechar a porta, sempre dava um sorriso saudoso ao ver as fotos da família. Adorava a cozinha laranja. E adorava a cozinha laranja que, alguns passos depois, dava na sala verde. E também adorava a sala verde que, alguns passos depois, dava no quarto roxo. Era tudo tão seu que fazia um sentido maior do que qualquer um podia imaginar. E as cores, que pareciam não combinar numa possível descrição, combinavam perfeitamente. Nisso todo mundo concordava. E depois de passear de camiseta com os pés no chão gelado, ligava a televisão e sentava no sofá com tecido laranja e algumas almofadas – que costumava arrumar incessantemente quando recebia visitas. Ligava a televisão por um motivo muito simples: queria se sentir normal. Gente normal acorda no sábado no meio daquela confusão da família e assiste coisas normais. Gente normal não passa o dia dançando e ouvindo a cantora de jazz até o sol se pôr e a vidinha noturna arrastar você para lugares conturbados. Então ouvia tudo sobre o futebol nacional e se cansava. Aí decidia assistir videoclipes, mas ficava chateada com aquelas mulheres estilinho hip-hop com suas bundas homéricas invadindo a tela. Desligou a televisão e substituiu a cantora de jazz pela cantora francesa, que ia ocupando aos poucos cada cômodo, dando um ar meio intimista ao lugar. Parou na frente do espelho, se olhou por um tempo, e bagunçou o cabelo, que já alcançava as costas. Riu da própria imagem ao ver os fios de cabelo se entrelaçarem, cobrindo os olhos, o nariz e parte da boca. Sempre fazia isso quando tudo parecia perfeito demais.

2 comentários:

Anônimo disse...

Ô, gente normal,vê se liga para a família, tá?
Porque aqui nada tá perfeito sem você!
bj

Anônimo disse...

saudade saudade saudade!
passei uns dias sem passar por aqui e quando apareço sou "premiada" com dois textos!
saudade. muita saudade!
Dida.