por Maria Rita Angeiras
Depois de dormir 3 horas depois de quase 19 de trabalho, a menina acordou, ainda meio atordoada pelo sono e entrou no banho correndo, tinha que estar de volta para uma reunião. Seguiu para a cozinha, pegou um iogurte na geladeira e jogou na bolsa. Fez o mesmo com a meia-calça, não tinha tempo naquele momento. Para contrapor o cansaço e as olheiras, colocou seu vestidinho junino-indie e entrou no elevador. Ao dar de cara com o espelho, disparou para o nada “meu cabelo não amadurece, definitivamente”. Tudo isso alheia ao porteiro, que provavelmente acompanhava toda a movimentação da louca que fala sozinha no elevador às 7h30 da manhã. Entrou no táxi e relaxou, o sol estava maravilhoso. O dia foi realmente excelente. Campanha aprovada, sorriso no rosto do cliente e, opa, vamos voltar para a agência. O dia, que a princípio ia ser curto, ficou longo demais para tanto cansaço. Só de reunião foram umas 5 horas no total. Mas tudo bem, tudo por ótimas causas. Às 18h o sono já estava absurdo e não conseguia nem mexer o braço para trocar as músicas ruins que tocavam no computador. Chegou naquele ponto periclitante: a preguiça de voltar para casa. Criou coragem, respirou fundo e pegou o primeiro ônibus. Tudo bem, gostava de se jogar na cadeira e ficar pensando em tudo que tinha acontecido durante o dia. Era quase um momento meio terapêutico, de reflexão, quase sempre interrompido por alguém que falava alto e usava perfume barato. O que ela odiava era pegar o segundo ônibus, achava que aquilo quebrava os milhares de pensamentos e ainda fazia ela andar uns 100 metros para pegar o outro. Droga, droga, droga. Ela subiu no segundo ônibus, ouviu gente falar alto, sentiu cheiro de perfume barato e desceu – não exatamente nessa ordem e muito menos nessa rapidez. O trânsito na cidade é absurdo nesse horário. Desceu a duas ruas de casa, desviou dos carros e entrou no prédio. Ficou se encarando no mesmo elevador. A bagunça matinal do cabelo tinha assumido uma bagunça mais digna, aquela de quem trabalha o dia inteiro e de quem é muito ocupada para pensar em algo estúpido como cabelo. Abriu o apartamento, fez um queijo quente, tomou um banho e desmaiou no sofá. Tentou assistir 15 minutos de televisão, mas acabou indo pra cama. No dia seguinte, descobriu que alguém fraudou um cheque que tinha passado para um taxista – R$ 15 tinham virado R$ 800, devidamente descontados da sua conta. Depois de tentar resolver a confusão, sentou no deck do trabalho e ficou olhando as camadas de poluição. Pensou para onde teriam desviado o glamour, a fama e a fortuna. Lembrou de Bollywood (Bombai + Hollywood) – a indústria cinematográfica da Índia que faz uma releitura local das produções hollywoodianas. Uma mistura de roteiro mexicano com muito lápis de olho. Ela sorriu e pensou “this is Bollywood, definitivamente”.
Um comentário:
Mto bom!! Tirando a profissionalidade dos fraudadores de cheques... incrível!
Saudade! Vem logo!
Beijos,
Bel
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